Grandes degustações

Experimentamos vinhos clássicos da costa oeste norte-americana

Confira nossa verdadeira viagem pelo velho oeste


Há pouco tempo, ADEGA foi convidada a conduzir uma degustação para amantes do vinho em Curitiba. Gente apaixonada e viajada, por isso, decidimos explorar um país produtor que está à vista de todos, mas geralmente passa despercebido.

Muitos de nós costumamos ir algumas vezes por ano aos Estados Unidos, a negócios ou lazer, e acabamos aproveitando para degustar belos rótulos franceses e italianos nos restaurantes, atraídos pelos ótimos preços graças a um sistema tributário que prefere receber menos sobre mais ao invés de cada vez mais sobre menos. Nos últimos quatro anos, entretanto, temos aproveitado as viagens ao Tio Sam para explorar os rótulos dessa nação, que é a maior importadora de vinhos do mundo e ainda tem sede para consumir mais três vezes sua importação com o que é produzido em seu próprio território.

Nosso editor de vinhos, Eduardo Milan, teve a oportunidade de viver na Califórnia em 1998 e no Oregon em 2001, e há quatro anos já escrevia uma extensa matéria sobre o assunto. Algumas outras se seguiriam em nossas páginas nesse período e temos certeza de que ­cou claro que não podemos falar de “vinhos americanos”, assim como não podemos falar de “vinhos franceses” sem cair no ridículo de uma generalização.

Poderíamos, sim, falar do gosto médio americano, ou do gosto de Robert Parker, que tende mais para a opulência, valorizando o álcool, a fruta sobremadura e a madeira, como ingredientes essenciais. Mas ilhas de elegância sempre foram encontradas nos Estados Unidos. Hoje, esses vinhos que valorizam o equilíbrio e a elegância estão mais presentes do que nunca, sobretudo no espectro superior da pirâmide. É algo curioso, porque vinhos elegantes não são necessariamente mais caros de produzir. Isso se dá por duas razões. Talvez quem possa e esteja disposto a pagar mais por um vinho tenha viajado mais e tenha um gosto mais apurado, ou talvez porque uvas de menor qualidade podem ser corrigidas (ou mascaradas) por sobremadurez, taninos e álcool, e estas sejam obviamente destinadas aos vinhos mais “ordinários”.

Buscamos então uma seleção de vinhos que permitisse comparar lado a lado um espectro mais amplo do que há de melhor nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, representar o ‑agship das regiões e das variedades.

Chardonnay

Iniciamos a noite com um branco, o Kendall-Jackson Vintner’s Reserve Chardonnay 2013 (AD 90 pontos). Muita gente acredita que a uva típica americana é a Zinfandel, mas esta representa apenas 4% do consumo no país, enquanto o “Chard” responde por 36% do consumo de vinho produzido lá.

A vinícola Kendall-Jackson é uma referência quando o assunto é Chardonnay nos Estados Unidos. Mas também escolhemos este vinho para degustar com homens (e mulheres) de sucesso em seus negócios porque Jess Jackson, falecido fundador da vinícola, foi um típico “self-made man”. De estivador a policial, ele trilhou seu caminho pelo estudo do direito na Berkeley’s Boalt Hall School, na Universidade da Califórnia, e amealhou sua riqueza com investimentos imobiliários. Jackson ainda ousou entrar em dois territórios aristocráticos para os quais não fora convidado: a criação de cavalos de corrida e a produção de vinhos. Nos cavalos de corrida, em 2007, com Curlin, conquistou duas vezes consecutivas o prêmio nacional de Melhor Cavalo do Ano e, em 2009, sua potranca Rachel Alexandra foi a primeira, em 85 anos, a vencer a Preakness Stakes de Pimlico e também se tornou o Melhor Cavalo do Ano. Nos vinhos, ele quis produzir os melhores Chardonnays dos Estados Unidos e pudemos avaliar isso na degustação.

A Kendall-Jackson produz de Chardonnays mais simples até grandes vinhos. O que escolhemos não é o mais caro da linha, mas sim aquele que admiramos mais, por sua elegância e excelência no uso da madeira, que está presente, mas com a ­nesse de oferecer a base para o brilho da fruta e da excelente acidez. Com aromas de pera, maçã verde, frutas tropicais e um belo toque cítrico, este Chardonnay vem de vinhedos próprios nos distritos costeiros e frios de Monterey (36%), Santa Barbara (36%), Mendocino (14%) Sonoma (14%), San Luiz Obispo (3%). O vinho é fermentado em barricas de carvalho francês e americano onde ­ca em contato com as borras.

Pinot do Oregon

Ao Chardonnay seguiu o Pinot Noir. E, para iniciar, fomos ao Oregon, que se tornou a terra do Pinot Noir nos Estados Unidos. Há dois anos tivemos a oportunidade de visitar a Erath Winery, um dos pioneiros no estado e que começou a produzir vinhos em 1972.

Há menos de uma hora ao sul de Portland, não perca a oportunidade de visitar Erath se estiver na região. Poucas coisas poderiam ser tão diferentes do que esperamos de uma vinícola. Nada de black-tie e castelos. A Erath une a informalidade de Portland à exploração do Velho Oeste americano. Um celeiro foi sua vinícola original. No centro de recepção, degustamos belíssimos vinhos acompanhados de sanduíches na varanda da casa de madeira e sob um caramanchão coberto com plantas.

Na época, o sanduíche de rosbife foi a harmonização perfeita com este vinho que escolhemos, o Erath Estate Selection Pinot Noir 2011 (AD 91 pontos), uma seleção de vinhedos do vale de Willamette. O diferencial dos vinhedos entre as  florestas verdes da região são o frio intenso e, sobretudo, o solo de origem vulcânica e sedimentar pelo rio Willamette. Com apenas 12,5% de álcool, 40% deste vinho passa 14 meses em barricas de carvalho francês. Morango e frutas vermelhas convivem com as notas terrosas e o perfi­l da madeira. Tudo com bom equilíbrio e acidez e que ­cará ainda melhor nos próximos anos.   

Pinot da Califórnia

Do Oregon, voltamos para Califórnia, para um terroir muito específico, onde nasce o Sanctuary Pinot Noir 2011. Este Pinot Noir é um dos exemplares mais elegantes e equilibrados de Pinot Noir californiano que acompanhamos nos últimos anos. Estudando um pouco, descobrimos que seu terroir em Santa Maria Valley – uma AVA (American Viticultural Area) justo ao norte de Santa Bárbara – é um funil de duas cadeias de montanha transversais ao oceano, canalizando o ar frio e úmido do Pací­co norte, temperando os dias ensolarados da Califórnia. Este é o único ponto das Américas com essa característica de cadeias de montanhas transversais e não paralelas ao Pací­co. O solo tem boa dose de areia com argila, mas também encontramos combinação de sílica e areia, além de outro per­l com areia e húmus, sempre extremamente bem drenados.

O Sanctuary é um single vineyard, sendo 48% fermentado em barricas e 52% em tanques abertos. Após a malolática, ­ca 12 meses em barricas de carvalho francês. Podemos sentir a maturação lenta e longa desse terroir na estrutura do vinho. Fruta fresca (morangos e outras “berries”), fi­nesse de taninos, boa acidez, toques balsâmicos e madeira como belo coadjuvante. Este vinho, ainda não descoberto no Brasil, tem uma excelente relação qualidade-preço para um Pinot americano dessa qualidade e foi votado como Pinot Noir da noite pelos presentes.

Cabernet Sauvignon

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Dos Pinot, seguimos para a uva com que os Estados Unidos conquistaram o respeito do mundo. E para poder fazer um painel completo, escolhemos o histórico Stag’s Leap S.L.V. da safra 2009 (AD 92 pontos), um dos ícones de nosso International Tasting, que brilhou na brilhou na edição de dezembro de 2015.

O Cabernet da safra 1973 de Stag’s Leap foi o vencedor do Julgamento de Paris de 1976, quando bateu os grandes franceses na opinião dos maiores especialistas da França na época. Ou seja, é um _lho do Napa Valley. Visitar a Stag’s Leap uma vez na vida é quase uma obrigação para os amantes do vinho. A vinícola é linda e, recentemente, um novo centro de visitas foi inaugurado com vista para o vinhedo do S.L.V., cujo solo vulcânico podemos sentir claramente em sua estrutura mineralizada, com frutas negras e taninos elegantes. Os solos aluviais da parte oeste do vinhedo contribuem para as frutas vibrantes deste Cabernet puro sangue, descrito muitas vezes como um punho de aço numa luva de veludo. O S.L.V. passa 21 meses em carvalho francês e, embora tenha sido eleito o vinho da noite, merece pelo menos mais cinco anos de garrafa.

Blend

Por fim, partimos para o mais europeu de todos os vinhos da noite. O Cinq Cépages 2008 do Chateau St Jean (AD 91 pontos). Esta vinícola é uma das estrelas do enoturismo no coração de Sonoma County. Sua inspiração francesa não se resume ao Château de 1920 e belos jardins. O Cinq Cépages, como o nome indica, é um blend bordalês com 78% de Cabernet Sauvignon, 10% de Cabernet Franc, 5% de Merlot, 3% de Malbec e 4% de Petit Verdot. Antes de serem combinados, cada um dos cinco varietais é fermentado separadamente e assim ficam por 26 meses em barricas de carvalho, sendo 84% francesas e 16% americanas, com 59% de barricas de primeiro uso e as demais de segundo ou terceiro uso. Após o blend, o vinho fica por mais um ano estagiando em garrafa antes de ir a mercado. Um estilo raro nos Estados Unidos, valorizando o tradicional, tem na estrutura sua marca registrada, com taninos presentes e polidos, e frutas que vão do vermelho ao negro, com grande complexidade de aromas. Um bom toque de mineralidade (gra_te) acompanha todas as safras que pudemos degustar.

Para harmonizar os vinhos no jantar que se seguiu, o chef do Terra Madre Ristorante teve a sensibilidade de propor um prato capaz de combinar com todos os tintos da noite por razões distintas. O Mignon Grelhado com Risoto de Cogumelos ressaltava o caráter terroso dos Pinot Noirs pelo cogumelo, assim como o filé casava perfeitamente com a estrutura dos Cabernets e do blend.  

AD 90 pontos

KENDALL-JACKSON VINTNER’S RESERVE CHARDONNAY 2013

 

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Kendall-Jackson, Califórnia, Estados Unidos (Inovini R$ 175). Admiramos este Chardonnay por sua elegância também no uso da madeira, que está presente, mas com a finesse de oferecer a base para o brilho da fruta e da excelente acidez. Com aromas a pera, maçã verde, frutas tropicais e um belo toque cítrico, este Chardonnay vem de vinhedos próprios nos distritos costeiros e frios de Monterey (36%), Santa Barbara (36%), Mendocino (14%) Sonoma (14%), San Luiz Obispo (3%). CB

 

AD 91 pontos

ERATH ESTATE SELECTION PINOT NOIR 2011

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Erath Estate, Oregon, Estados Unidos (Winebrands R$ 435). Este belo Pinot vem de vinhedos no vale de Willamette marcado pelo frio intenso e pelo solo de origem vulcânica e sedimentar do rio Willamette. 40% passa 14 meses em barricas de carvalho francês. Morango e frutas vermelhas convivem com notas terrosas e perfil da madeira. Tudo com bom equilíbrio e acidez, e que ficará ainda melhor nos próximos anos. CB

AD 91 pontos

CINQ CÉPAGES 2008

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Chateau St. Jean, Califórnia, Estados Unidos (World Wine R$ 823). O Cinq Cépages, como o nome indica, é um blend bordalês com 78% de Cabernet Sauvignon, 10% de Cabernet Franc, 5% de Merlot, 3% de Malbec e 4% de Petit Verdot. Antes combinados, cada um dos cinco varietais é fermentado separadamente, e assim ficam por 26 meses em barricas de carvalho (84% francesas e 16% americanas, com 59% de barricas de primeiro uso). Após o blend, o vinho estagia mais um ano em garrafa. Tem na estrutura sua marca registrada, com taninos presentes e fruta opulenta. Grande complexidade de aromas, marcada pela mineralidade do grafite. CB

AD 92 pontos

SANCTUARY PINOT NOIR 2011

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Fetzer, Califórnia, Estados Unidos (VCT R$ 240). Elegante e equilibrado single vineyard de Santa Maria Valley. 48% fermentado em barricas e 52% em tanques abertos. Passa 12 meses em barricas de carvalho francês. A maturação lenta e longa está na estrutura do vinho. Fruta fresca (morangos), finesse de taninos, boa acidez, toques balsâmicos e madeira na medida. Um achado entre os Pinots dos EUA. CB

AD 92 pontos

STAG’S LEAP S.L.V. 2009

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Stag’s Leap Wine Cellars, Califórnia, Estados Unidos (Winebrands R$ 1.956). Histórico vencedor do Julgamento de Paris, seu vinhedo tem solo vulcânico que sentimos claramente em sua estrutura mineralizada, com frutas negras e taninos elegantes. Os solos aluviais da parte oeste do vinhedo aportam as frutas vibrantes deste Cabernet puro sangue, descrito muitas vezes como um punho de aço numa luva de veludo. Embora delicioso, merece pelo menos mais cinco anos de garrafa. CB

Christian Burgos

Publicado em 11 de Novembro de 2018 às 21:00


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