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Família Soares e a portuguesa Herdade da Malhadinha Nova

O meticuloso trabalho da família Soares, que envolve até as crianças, na Herdade da Malhadinha Nova

Guilherme Veloso em 8 de Janeiro de 2019 às 17:00

Paulo Soares, Margarete, Rita e João Soares, proprietários da Herdade da Malhadinha Nova

O engarrafamento dos vinhos brancos, safra 2016, da Herdade da Malhadinha Nova, no Alentejo, atrasou e ainda não tinha data prevista para ocorrer quando ADEGA visitou a vinícola. Não foi problema técnico. Simplesmente os desenhos para ilustrar os rótulos dos vinhos não ficaram prontos.

Desde que começou a produzi-los em 2003 (a primeira safra foi lançada em 2005), eles são feitos pelas crianças da família Soares, proprietária da Herdade, hoje com idades que vão dos 4 aos 19 anos, que ainda não tinham terminado seu trabalho. A participação das crianças não se limita aos rótulos. Elas também emprestam os nomes a alguns dos vinhos produzidos, a exemplo do “Marias” da Malhadinha, do “Pequeno João” e do “Menino António” (com acento, como se escreve em Portugal). E, de certa forma, resume a filosofia que, até hoje, orienta as atividades da Malhadinha, um empreendimento em que negócios e família andam juntos.

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As uvas, colhidas manualmente em caixas com pequena capacidade (12 quilos), para preservar seu conteúdo, passam por rigorosa triagem tanto no vinhedo como na mesa de seleção

O projeto começou a tomar forma em 1998 com a compra da propriedade de 450 hectares, nas proximidades de Beja, considerada a “capital” do sul do Alentejo, pelos irmãos João (e sua esposa Rita) e Paulo Soares, e pelos pais de ambos. Os Soares não eram propriamente neófitos no mundo dos vinhos, pois operam um grande negócio de distribuição de bebidas finas na região do Algarve, principal polo turístico de Portugal, onde também controlam uma rede de lojas especializadas. Ter uma vinícola e fazer o próprio vinho foi um sonho acalentado desde que os caminhos dos dois irmãos e de Rita se cruzaram. O irmão de Rita era colega de turma de Paulo. Daí que João conheceu Rita e começaram a namorar. Mas, bem antes do casamento, Rita já trabalhava com os irmãos no negócio da família (mais tarde, a francesa Margarete se juntaria ao grupo ao casar-se com Paulo).

Na época em que foi vendida, a Herdade da Malhadinha Nova estava inteiramente abandonada. Assim, a primeira decisão tomada pelos novos donos foi a de reconstruir uma das antigas casas existentes na propriedade para que pudesse ser usada pela família nas visitas que se tornaram cada vez mais frequentes, já que ela dista pouco mais de uma hora de carro do Algarve. Os primeiros 20 hectares de vinhedos (hoje são 35) foram plantados em 2001 e a vinícola ficou pronta para a primeira vindima em 2003. A entrada no mercado ocorreu no início de 2005, com o lançamento da linha Monte da Peceguina, cujo nome homenageia uma das casas existentes na propriedade, conhecida por “Peceguina Velha”. Como a outra, ela teve que ser totalmente reconstruída para transformar-se no charmoso Country House & Spa, hotel-boutique (sete quartos e três suítes) inaugurado em 2008, com requintes como louças dos banheiros assinadas pelo designer Philippe Starck e produtos de toucador marca Bulgari.

Meticuloso

Por ser a própria razão da compra da Malhadinha, a produção de vinhos mereceu cuidados especiais. Construída numa encosta do terreno, a pequena distância dos vinhedos, a vinícola foi concebida para operar por gravidade, limitando ao mínimo o uso de bombas, o que melhora a qualidade final dos vinhos. As uvas, colhidas manualmente em caixas com pequena capacidade (12 quilos), para preservar seu conteúdo, passam por rigorosa triagem tanto no vinhedo como na mesa de seleção. Depois, são descarregadas diretamente em modernos lagares refrigerados, onde, nos vinhos de topo, ocorre a tradicional pisa a pé. A sala de barricas foi escavada vários metros abaixo do solo para melhorar o isolamento térmico e nela só entra carvalho francês das melhores tanoarias (anualmente são compradas 100 barricas e/ou pequenos barris de 500 litros novos).

Para lapidar seus vinhos, os Soares contrataram Luis Duarte, um dos enólogos mais conceituados de Portugal, que, além de produzir seus próprios vinhos, é consultor de importantes vinícolas. Duarte atua em parceria com Nuno Gonzalez, o enólogo residente, que passou por vinícolas como J.M. da Fonseca, Niepoort e Cortes de Cima.

O charmoso Country House & Spa é hotelboutique com sete quartos e três suítes inaugurado em 2008

São vinhos modernos (afinal, a vinícola é jovem), mas sem exageros, por exemplo, no uso da madeira nova, reservada aos tintos topo de gama. Já a maioria dos brancos varietais fermenta e estagia em tanques de inox, para preservar o frescor e a fruta, o que pode ser percebido nos exemplares da safra 2015 do Antão Vaz e do Arinto da Peceguina, provados por ADEGA.

Os vinhos são à base tanto de uvas clássicas portuguesas como de cepas internacionais. Entre as primeiras, as tintas Alicante Bouschet (francesa de origem, ela encontrou no Alentejo seu terroir de excelência), Trincadeira e Touriga Nacional; e as brancas Antão Vaz, Arinto e Roupeiro. Já Cabernet Sauvignon, Syrah, Chardonnay e Viognier figuram entre as castas internacionais. São três linhas: Malhadinha, os topo de gama, Monte da Peceguina e Monocastas. Esses últimos, atualmente cinco tintos e quatro brancos, só são lançados quando a safra é suficientemente boa para a varietal em questão, cuidado que também é tomado em relação aos vinhos top, ainda que sejam fruto do corte de várias uvas.

O projeto começou em 1998 com a compra de 450 hectares pelos irmãos João (e sua esposa Rita) e Paulo Soares

O melhor exemplo é dado pelo “Marias da Malhadinha”, tinto mais importante da casa, do qual até hoje só foram lançadas três safras. É um corte em que a Alicante Bouschet predomina, coadjuvada por Tinta Miúda, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon. O vinho passa 26 meses em barricas novas de carvalho francês (e, em geral, mais um ano em garrafa), antes do lançamento. A mais recente, 2010, chegou ao mercado em abril de 2013 e dela só foram produzidas 5.661 garrafas de 750 ml e 252 em formato magnum. É um vinho potente, que pede tempo (em garrafa) e companhia (comida), sem perder a elegância. O cuidado com que são elaborados e a pequena produção (no total das três linhas foram aproximadamente 350 mil garrafas em 2016) dão respaldo ao comentário de João Soares numa visita ao Brasil de que “é impossível fazer vinhos baratos na Malhadinha”.

Mais do que vinho

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As refeições são uma atração à parte para os hóspedes do hotel & spa da Malhadinha, que têm à disposição inúmeras atividades de lazer

Embora tenha nascido com o objetivo precípuo de produzir vinhos, o projeto da Malhadinha foi concebido com ambições maiores. Nele, também há lugar para a criação da vaca e do porco preto alentejanos e para atividades agrícolas tradicionais na região, como o cultivo de oliveiras (e produção de azeite com marca própria) e de sobreiros, de cuja casca se extrai a cortiça. A mais recente dessas atividades é a criação de cavalos da raça puro sangue Lusitano. Mas, provavelmente, a segunda perna em importância de todo o projeto da Malhadinha é o enoturismo, alavancado pelo resort/spa e pelo restaurante, inaugurado quase na mesma época que o hotel. Aberto ao público, ele tem como chef consultor o alemão Joachim Koerper, que comanda as panelas do estrelado Eleven, em Lisboa, agora com filial no Rio de Janeiro. Além dele, o restaurante conta com um chef executivo, responsável pelo dia a dia, e por uma cozinheira especializada em pratos tradicionais da culinária alentejana.

A construção de nova unidade hoteleira, que terá 14 suítes, em outro ponto da propriedade, deve ficar pronta em dois anos. Mais do que duplicar a atual capacidade de hospedagem, será um estímulo adicional para o enoturismo, que, por sinal, segundo os administradores, atrai muitos brasileiros. Aos hóspedes do Country House & Spa é oferecido um variado cardápio de “experiências”, que inclui, entre outras atividades, passeios de balão ou em veículos off road, cursos de degustação de vinhos, workshops de culinária, ioga e equitação. Afinal, o projeto da Herdade da Malhadinha Nova não almeja apenas produzir vinhos de qualidade, mas, como sintetiza o lema adotado na divulgação de sua proposta, “fazer da vida uma festa”.

Crianças e vinhos

Contrariando a velha teoria que não recomenda misturar negócios e família, na Herdade da Malhadinha eles caminham juntos desde o início. A propriedade foi comprada em 1998, mesmo ano do nascimento de Francisca Maria, primeira filha do casal João e Rita Soares. Matilde Maria nasceu quatro anos depois e, no ano seguinte, o casal adotou Melissa Maria, que tem praticamente a mesma idade de Francisca. São elas as “Marias” da Malhadinha, que dão nome ao, até hoje, tinto mais importante da vinícola. A ilustração no rótulo do vinho é um desenho em traço simples que mostra três meninas, feito pelas próprias homenageadas.

Os primeiros vinhos da Herdade a chegar ao mercado foram os da linha Monte da Peceguina, branco e tinto, cujo rótulo traz um bonito cacho de uvas desenhado por Francisca. Já a sorridente vaquinha que até hoje ilustra o rótulo dos vinhos da linha Malhadinha, nas versões branco e tinto, é obra de Matilde. Foi de Rita a ideia de pedir às filhas que fizessem os desenhos, inicialmente encomendados a seu irmão, designer de formação. Desde então, mantevese também a prática de lançar vinhos celebrando os novos membros
da família. Quando João Maria, filho de João e Rita, veio ao mundo em 2004, foi lançado o tinto “Pequeno João”, que, fiel ao nome, só e produzido em garrafas de 500 ml (ou em magnums e double magnums de 1,5 e 3 litros, respectivamente). Em 2008 foi a vez de António Maria, primeiro filho do casal Paulo e Margarete. Como foi um grande ano para a Alicante Bouschet, o vinho “Menino António” é 100% à base dessa uva e, por essa razão, só teria nova edição em 2012, quando a safra foi de novo muito boa para a casta. A solução encontrada para ilustrar o rótulo desses dois vinhos em seus respectivos lançamentos foi simples e engenhosa: no primeiro, aparece estampada a mãozinha de João; no segundo, o pezinho de António (esse último num tom violáceo que faz jus à própria uva com que foi produzido). O exemplo mais recente foi o lançamento, em 2013, do tinto MM da Malhadinha, que marcou o nascimento de Mateus Maria, também filho de João e Rita. Nascida em 2010, Maria Benedita, filha mais nova de Paulo e Margarete, fez o desenho que ilustra o rótulo do Antão Vaz 2015.

Única exceção feita a essa política. Joachim Koerper foi convidado a ilustrar o rótulo do primeiro Syrah produzido na Herdade, do qual até hoje foi lançada apenas uma safra. Não por acaso, o desenho de Koerper mostra um chef com o característico “toque” como é conhecido o “chapéu branco” usado por esses profissionais.

Vinhos avaliados

AD 89 pontos

ANTÃO VAZ DA PECEGUINA 2015

Herdade da Malhadinha Nova, Alentejo, Portugal. A Antão Vaz é nativa da região onde fica a Malhadinha. Por isso, esse varietal é produzido praticamente todos os anos. É um vinho vibrante, com acidez refrescante, que mescla um elegante floral com notas cítricas e de frutas tropicais. Ótimo como aperitivo, escoltou muito bem uma deliciosa salada com fatias de presunto de porco preto e doce de figo. GV

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AD 90 pontos

PEQUENO JOÃO 2013

Herdade da Malhadinha Nova, Alentejo, Portugal. Não se engane pelo nome nem pelo tamanho da garrafa. Esse é um tinto potente e muito concentrado, com taninos ainda bem marcados, que recompensará os mais pacientes. 100% à base de Cabernet Sauvignon, mostra fruta madura (cerejas escuras), chocolate, tostado e uma nota terrosa que lembra grafite. Pede (exige!) pratos à base de carne, como o suculento naco de novilho acompanhado de purê de batatas com parmesão e cebolas caramelizadas no vinho tinto, proposto no restaurante da Herdade. GV

AD 91 pontos

MALHADINHA LATE HARVEST 2012

Herdade da Malhadinha Nova, Albernôa, Portugal. Boa surpresa esse late harvest da Malhadinha. 100% Petit Manseng, uva que costuma render bons vinhos de sobremesa em regiões como o sudoeste da França. Em sua terceira edição, mostra aromas de damascos, casca de laranja e leve baunilha, fruto do estágio em barricas, com uma ponta de mel no final. Na boca, o bom equilíbrio entre acidez e açúcar, pedra de toque nesse tipo de vinho, completase com os 11,5% de álcool. Delicioso sozinho ou acompanhando tortas à base de frutas com boa acidez e não muito doces. GV


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