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A história da Família Torres vai do Petróleo em Cuba à conquista do mundo pelos vinhos


 

Foto histórica dos trabalhadores da Torres, em Vilafranca del Penedès. A Família iniciou sua aventura no comércio de vinho em 1870

É curioso como algumas jornadas começam. Sabendo que há registros de que a família Torres está ligada à viticultura desde 1559, seria normal pensar que a evolução foi lenta e constante até que eles se tornaram uma das principais referências de vinho no mundo. No entanto, essa trajetória não somente não foi linear, como ainda talvez sequer tivesse ocorrido se não fosse por um jovem audacioso que embarcou para Cuba e investiu em petróleo ainda no século XIX. 

Antes de completar 16 anos, Jaime Torres Vendrell, nascido em Sant Pere Molanta, no Penedès, decidiu que seu destino não estava em terras catalãs. Em Barcelona, convenceu o capitão de um navio a deixá-lo embarcar. Aportou em Havana, Cuba, onde conseguiu emprego com um comerciante catalão. Dormia no balcão da loja para economizar com aluguel e conseguiu juntar uma quantia razoável, que decidiu investir em petróleo (produto que, segundo as publicações que lia na época, mudaria o mundo). Assim, pegou 500 pesos e enviou para uma empresa norte-americana para comprar petróleo e distribuir na ilha. Com essa aposta ousada, porém certeira, em menos de cinco anos, Jaime fez fortuna e diversificou seus negócios. 

 

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Perspicaz, antecipou-se ao estouro da bolha do petróleo, liquidou a empresa e voltou para a Espanha em 1870, ano que marcaria o ingresso definitivo dos Torres no mercado do vinho. 

 

Jaime Torres Vendrell voltou de Cuba e, junto com seu irmão, Miguel, iniciou a empresa. A moderna Celler Waltraud fica em Pacs del Penedès e foi construída em 2008 pelo arquiteto Javier Barba

 

Sucesso e vicissitudes 

Com a ajuda de seu irmão mais velho, Miguel (herdeiro da família), percebeu que poderia exportar vinhos do Penedès, primeiramente para Cuba e depois para outros países da América. A rua do Comércio de Vilafranca recebeu armazéns com capacidade total de 120 mil hectolitros e, dessa forma, criou-se a “Casa Torres y Compañíacosechero y exportadora de vino”. Em pouco tempo, as exportações de vinho para o continente americano se tornaram tão intensas que o “trem Torres”, carregado de vinho com destino ao porto de Barcelona, ​​era visto diariamente em Vilafranca. 

Jaime faleceu em 1906 e, pouco depois também seu irmão, Miguel. Juan Torres Casals, filho de Miguel, ficou a cargo da empresa. Diferentemente do tio, concentrou 100% de seus esforços na vinícola e somente assim conseguiu passar por períodos conturbados, como a guerra de independência cubana na década de 1920 que quase acabou com a capacidade de crédito da vinícola. 

Juan morreu aos 67 anos, em 1932, deixando a empresa nas mãos do jovem Miguel Torres Carbó, de apenas 25 anos. Pouco depois, explodiu a guerra civil espanhola. A aviação italiana, aliada do lado franquista, bombardeou várias cidades catalãs, incluindo Vilafranca. De repente, tudo o que os Torres construíram estava sob escombros. Mas Miguel reconstruiu a vinícola depois de dois anos, durante os quais viajou para Cuba, Venezuela, México, Estados Unidos e Canadá, para estudar esses mercados e suas características. 

Em 1941, voltou para Barcelona e abriu escritórios comerciais nos Estados Unidos. Esse foi o maior período de expansão da Torres, com produção de vinhosdestilados, vermutes e aguardentes que eram exportados, mas, desta vez, engarrafados. 

 

A escuridão das salas de envelhecimento e o silêncio são o ambiente ideal para descanso e evolução da bebida no carvalho. Em 1979, Cabernet da Torres venceu a Paris Wine Olympiad, consagrando-se como um dos maiores do mundo

O próximo passo, inconveniente 

Foi graças à “pavimentação” do caminho feita por Miguel que seu filho, Miguel A. Torres Riera, atual presidente da empresa, deu passos na direção da conquista do prestígio mundial. Há cinco décadas, ele projetou a gênese do ícone Mas La PlanaEm 1964, plantou Cabernet Sauvingon na propriedade homônima de Mas La Plana, sem saber que isso revolucionaria a cena do vinho espanhol. Na época, mesmo seu pai, Miguel Torres Carbónão acreditavaComo um Cabernet espanhol em uma garrafa borgonhesa pode ser um bom vinho? 

Em 1979, pai e filho optaram por apresentar o controverso vinho na competição de maior prestígio da época, a Paris Wine Olympiad, organizada pela Gault-MillauFoi aí que o Mas La Plana 1970 superou os Cabernets mais aclamados do mundo, dando origem à sua lenda. Desde então, Torres vem sendo um dos nortes da vitivinicultura espanhola nos mais diversos aspectos. 

Em 2007, por exemplo, após o documentário de Al Gore, Uma verdade inconvenientesobre os estragos da mudança climática, Miguel A. Torres decidiu iniciar um projeto que procurava mitigar os efeitos do aquecimento global e suas consequências diretas na videira, bem como um estudo para projetar medidas de adaptação a esse novo contexto climático. 

Os principais objetivos do programa priorizam a redução das emissões de CO2, do consumo de energia, a garantia da biodiversidade do meio ambiente e o uso responsável da água, entre outros, apostando decisivamente na inovação, procurando um modelo de produção sustentável. A Torres, atualmente, lidera um grupo de empresas vitivinícolas comprometidas com as causas ambientais chamado “International Wineries for Climate Action”. Hoje, o legado dos Torres está nas mãos de Miguel e Mireia Torres Maczassek, quinta geração da família, que completa 150 anos desde que Jaime e Miguel fundaram a “Casa Torres” 

 

Atualmente, a quinta geração da família Torres está no comando da empresa, com Miguel e Mireia Torres Maczassek, filhos de Miguel A. Torres, que ainda preside o grupo

Além da Espanha 

Enraizada em uma das mais tradicionais áreas do vinho espanhol, no Penedès, Torres atualmente está presente em um leque de denominações do país e fora dele. Na Espanha, eles possuem vinícolas e/ou vinhedos em Conca de BarberàPriorat, Costers del Segre, Rioja, Ribera del Duero, Rueda e Rias Baixas. Em 1979, a família iniciou seu projeto no Chile, estabelecendo a vinícola Miguel Torres no vale do Curicó, que se tornou a primeira vinícola estrangeira a se estabelecer no país andino. Três anos depois, a família adquiriu terras em Russian River, no vale de Sonoma, onde Marimar Torres, irmã de Miguel A. Torres, plantou Chardonnay e Pinot Noir e, em 1992, construiu sua própria vinícola, Marimar Estate. Em 1994, os Torres acrescentaram ao seu patrimônio a vinícola de Jean Leon – pioneiro na introdução de variedades francesas no Penedès. 

Hoje, Miguel e Mireia Torres Maczassek concentram seus esforços na produção de vinhos únicos dos diferentes terroirs da família, na recuperação de variedades ancestrais e na intensa pesquisa. Seus projetos mais recentes incluem Mas de la Rosa (DOQ Priorat), Purgatori (DO Costers del Segre) e Forcada (DO Penedès), o primeiro vinho monovarietal dos Torres, feito com uma variedade ancestral recuperada do esquecimento. Eles gerenciam cerca de 2.000 hectares de vinhedos próprios na Espanha (quase metade certificado como ecológico). 

“Nosso principal marco foi manter a vinícola nas mãos da família durante todos esses anos, com cada geração inovando à sua maneira e contribuindo com sua visão particular para o desenvolvimento dos negócios. Acho extraordinário que chegamos tão longe e é uma sorte continuar fazendo o que somos apaixonados: fazer vinho e cuidar das videiras. Agora, o desafio mais importante que enfrentamos é a mudança climática”, finaliza Miguel Torres. 

 

Miguel Torres Carbó assumiu a empresa com apenas 25 anos e viu a vinícola ser bombardeada durante a guerra civil espanhola, mas ele a reconstruiu e internacionalizou o nome Torres

As vinícolas de Torres 

A família possui, na Catalunha, o principal epicentro da vinificação e envelhecimento de seus vinhos com a Celler Waltraud, em Pacs del Penedès, construída em 2008 pelo arquiteto Javier Barba, referência em arquitetura bioclimática, e batizada assim em homenagem a Waltraud Maczassek, esposa de Miguel A. Torres. No coração do Priorat, a família também possui, desde 2008, uma moderna vinícola funcional projetada pelo arquiteto Miquel Espinet, localizada em El Lloar: a Família Torres Priorat. Em Lleida, no coração da subzona Les Garrigues, Torres inaugurou, em 2018, o Celler Purgatori, destinado à produção do vinho homônimo. Construída com critérios de eficiência energética, a vinícola é integrada à histórica fazenda da abadia de Montserrat em 1770, e preserva a antiga adega na qual os monges faziam seus vinhos. 

A família Torres também possui outras vinícolas com identidades próprias como a Vardon Kennett, em Santa Margarida d'Agulladolç (Penedès), dedicada à produção de Esplendor, o único espumante produzido pela família na Catalunha com método tradicional; Jean Leon, uma vinícola boutique localizada em Torrelavit (Penedès) e dirigida por Mireia Torres; Pago del Cielo em Ribera del Duero (Fompedraza, Valladolid); La Carbonera em Rioja (Labastida, Álava); Bodega Magarín em Rueda (Villafranca del Duero, Valladolid) e Pazo Torre Penelas em Rias Baixas (Portas, Pontevedra). Fora da Espanha, a família está presente no Chile, com a vinícola Miguel Torres Chile, em Curicó, e na Califórnia, com a Marimar Estate. 

 

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Arnaldo Grizzo

Publicado em 16 de Julho de 2020 às 14:30


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