Juventude

Confira a entrevista com Erwan Faiveley

Como o enólogo "por paixão" mudou o estilo do Domaine Faiveley, criando grandes vinhos capazes de serem bebidos ainda jovens


Se o Domaine Faiveley tivesse um cartão de visitas, nele estaria escrito apenas: “maior proprietário de vinhedos Grand e Premier Crus da Borgonha”. Trata-se de um feito notável numa região conhecida pela enorme fragmentação dos vinhedos, fruto das leis de herança em vigor na França desde os tempos napoleônicos e de sua constante valorização. Isso faz com que o tamanho médio desses vinhedos de exceção, no caso de Faiveley, seja de apenas 1 hectare (a média da Borgonha costuma ser até menor).

O Domaine foi fundado em 1825 por Pierre Faiveley e, desde 2005, está sob responsabilidade de Erwan Faiveley, um simpático jovem a caminho dos 35 anos, representante da sétima geração, que sucedeu o pai, François, no comando do negócio familiar. Erwan tem um irmão e uma irmã. O primeiro é jornalista, mais voltado à área científica, e não trabalha na vinícola. A irmã, depois de trabalhar na conhecida firma de cosméticos Estée Lauder, está prestes a se juntar a ele no Domaine.

Em entrevista exclusiva à ADEGA, Erwan apontou as diferenças entre a sua geração e a de seu pai e o que isso tem a ver com o estilo dos vinhos que produz. E não se furtou a explicar, por exemplo, o porquê de não acreditar na biodinâmica. Formado pela Escola Superior de Comércio de Paris, com MBA pela Columbia Business School de Nova York, Erwan também contou que não sentiu necessidade de cursar enologia e relataou as mudanças que, aos poucos, está promovendo na gestão da empresa familiar. Além de comandar a vinícola, ele participa ainda da administração do outro negócio da família, o grupo Faiveley Transport, um dos maiores fornecedores mundiais de sistemas para a operação de trens. Com quase 1 bilhão de euros de faturamento, o grupo tem fábricas em diversos países, inclusive no Brasil, em São Paulo.

"A Pinot Noir é uma uva muito difícil de cultivar e não é fácil encontrar (vinhos de) Pinot Noir interessantes que não na Borgonha"

Como se desenvolveu o Domaine Faiveley desde 1825?

Começamos como negociantes, mas, aos poucos, fomos comprando vinhedos. Hoje, somos provavelmente um dos três maiores proprietários de vinhedos na Borgonha. E mais de 80% dos vinhos que produzimos provém de nossos próprios vinhedos. Isso é muito importante, especialmente na Borgonha, onde damos grande importância ao terroir, ou seja, saber de onde, exatamente, vêm as uvas para determinado vinho.

Por que na Borgonha se dá tanta importância ao terroir?

Porque a diferença de qualidade dos vinhos (dependendo do terroir) é impressionante. Assim, se você quer ter certeza de oferecer grandes vinhos, numa base regular, ano após ano, acredito que isso seja impossível se você for apenas negociante. Isso não quer dizer que não se possa fazer grandes vinhos como negociante. Por exemplo, penso que fazemos um grande Pouilly-Fuissé como negociantes. Mas, quanto mais alto você sobe nas denominações, mais difícil se torna conseguir (comprar) uvas de grande qualidade. E você nunca sabe se as uvas que está comprando são da qualidade que espera.

No total, vocês têm quantos hectares de vinhedos?

Hoje, temos 120 hectares, dos quais 70 estão na Côte Chalonnaise (Mercurey, Rully, Givry-Montagny), ou seja, na parte sul da Borgonha. Depois, temos 15 hectares na Côte de Beaune. O restante está localizado na Côte de Nuits. Não só temos muita terra, mas temos muitos vinhedos (classificados como) Premier e Grand Crus. E isso faz uma enorme diferença. Em termos de Grand Crus, temos 12 hectares. E temos aproximadamente 30 hectares de vinhedos Premier Crus, o que é bastante.

Comprar terras lá requer um grande investimento...

Sim e não. Na verdade, não compramos a terra, pelo menos não compramos toda a terra. Compramos um Domaine estruturado como todos o são na Borgonha. Você tem uma empresa que tem contratos de arrendamento a longo prazo sobre os vinhedos, que pertencem a pessoas físicas. E, quando se tem contratos de arrendamento a longo prazo, a legislação permite que você informe que aquele vinho vem do seu próprio Domaine. Não precisa ser dono da terra. Assim, quando digo que comprei 20 hectares, significa que comprei alguns vinhedos e a empresa que tem os contratos de arrendamento sobre os vinhedos de muitos agricultores.

Muito dessa expansão ocorreu nas últimas duas ou três gerações, inclusive com a sua participação, correto?

Na verdade, vejo três grandes momentos na construção do Domaine. O primeiro foi durante a grande crise, nos anos 1930. Foi nessa época que compramos um grande Domaine em Gevrey-Chambertin, que nos trouxe todos os Grand Crus e Premier Crus dessa denominação. Depois, nos anos 1960, compramos 70 hectares em Mercurey. Meu pai não investiu muito em vinhedos. Ele comprou 5 hectares em Nuits-St-Georges. Eu estava muito interessado em encontrar Grand Crus em Puligny. Então, comprei um hectare em Bâtard-Montrachet e outro em Bienvenues-Bâtard-Montrachet. E, em 2013, conseguimos comprar mais 20 hectares em Gevrey-Chambertin.

A história de sua família mostra que o mercado anda aos saltos, para cima e para baixo. É assim mesmo?

"O potencial de envelhecimento de um vinho tem a ver com duas coisas. Primeiro, o terroir de onde provém. Segundo, o equilíbrio. E esse equilíbrio é diferente a cada safra"

Tem sido sempre assim. Mas acho que, hoje, a Borgonha está indo muito bem, por muitas razões. E tenho que admitir que temos tido muita sorte, porque tivemos uma década de grandes safras (ver box). E também porque, recentemente, a Pinot Noir tem estado na moda. Não apenas isso. A Pinot Noir é uma uva muito difícil de cultivar e não é fácil encontrar (vinhos de) Pinot Noir interessantes que não na Borgonha. Você até pode encontrá-los, mas com outro estilo. Os da Borgonha são únicos. Não há muitos lugares onde se possa cultivá-la e nenhum que se compare à Borgonha. Syrah, Cabernet Sauvignon, Sauvignon Blanc são uvas muito mais fáceis de cultivar.

Em visita ao Brasil, quando perguntada sobre a qualidade dos vinhos de Pinot Noir produzidos fora da Borgonha, Lalou Bize-Leroy (produtora famosa tanto por seus vinhos dessa uva como por suas opiniões ferinas) respondeu com certo desprezo que eles “pinotavam”, num trocadilho com “pinote”, no sentido de que não tinham qualidade. Você concorda com essa opinião?

Há ótimos lugares para se produzir Pinot Noir. Cada região tem seu próprio estilo e personalidade. Mas acredito que a Borgonha enfatizou uma personalidade que “fala” para muita gente, que muita gente aprecia.

Em sua opinião, que outras regiões do mundo produzem Pinot de qualidade, ainda que num estilo e com características distintas às da Borgonha?

Suíça. Mas o problema com os Pinot da Suíça é que eles não produzem muito e os suíços são muito chauvinistas. Primeiro, eles adoram beber seu próprio vinho. Como bebem muito e produzem pouco (por isso, inclusive, importam vinho), praticamente não exportam nada. Assim, duvido que encontre um Pinot suíço (no Brasil), mas, se encontrar, verá que é um lugar muito interessante para a Pinot.

E quanto aos Pinot produzidos em países do Novo Mundo, como Nova Zelândia e Chile?

A Nova Zelândia é um lugar muito interessante. Talvez esteja entre os Pinot mais interessantes fora da Borgonha que já provei. Nunca provei os do Chile. Minha experiência recente mais impressionante foi com os Pinot de Santa Rosa, na Califórnia. Tem uma vinícola, cujo nome é Rhys, que me impressionou tremendamente com seus vinhos. Fiquei tão impressionado que decidi comprá-los regularmente para ver como evoluem. E tem menos de 10 anos de vida. Surpreendente!

"Se você quer ter certeza de oferecer grandes vinhos, numa base regular, ano após ano, acredito que isso seja impossível se você for apenas negociante. Isso não quer dizer que não se possa fazer grandes vinhos como negociante"

Pensou em comprar terras nessa região?

Perguntei quanto custaria e é muito caro. Além disso, é um parque natural e você não pode comprar terra ali. Você pode fazer um contrato de arrendamento, mas nunca poderá comprá-la. A Rhys, por exemplo, tem um contrato de 25 anos. Acho muito arriscado, porque, depois de 25 anos, o estado pode decidir não renovar o contrato sem aviso prévio. E 25 anos não é nada na indústria de vinhos.

Faiveley tem investimentos fora da Borgonha?

Não. Até gostaria, porque seria divertido e porque gosto muito de viajar. A questão é que, se decidir expandir, não creio que tenha legitimidade em outra coisa senão Pinot e Chardonnay. Então isso diminui bastante as possibilidades. A América do Sul seria ótimo, mas é muito longe de onde vivo.

Mas teria a vantagem de poder usar a mesma equipe enológica, porque as colheitas ocorreriam em épocas distintas do ano, não?

“Se ofereço um vinho simples, de entrada, com cinco anos, mesmo na França, onde as pessoas têm bom conhecimento, vejo que elas não compram, porque a concorrência está vendendo a safra corrente, e elas não confiam (nos vinhos mais antigos)”

Na Nova Zelândia também, mas é muito longe e muito complicado. A América do Sul seria uma possibilidade, mas, pelo que vejo, não existem muitos lugares interessantes para considerar. Para a Chardonnay, um pouco, mas não para a Pinot. E me preocupam as questões políticas envolvidas. As coisas podem mudar muito rapidamente. Dito isso, não me sobram muitas opções. Uma opção interessante em termos de mercado, política etc, seria a China, mas há dois grandes problemas. Pelo que leio, ouço e já vi, mesmo num país tão grande, não há tantos lugares interessantes para se produzir vinho. Para a Chardonnay, talvez, porque a Chardonnay é um pouco como Cabernet Sauvignon e Merlot. Você planta e em algum momento conseguirá (produzir), pelo menos, um vinho decente. Por último, mas não menos importante, fazer negócio na China é muito complicado. Gostaria que meu pai tivesse investido no Russian River Valley, nos Estados Unidos, há 30 anos.

Por que não no Oregon?

Talvez, mas não sou grande fã do Pinot do Oregon, porque você pode identificá-lo de imediato. Deve ter algo a ver com o solo ou o clima. Os vinhos do Oregon têm personalidade, mas não fazem o meu estilo.

O seu pai continua ativo no negócio?

É uma história interessante. Temos a vinícola, mas também temos outro negócio. Em 2005, meu pai tomou consciência de que não poderia conduzir os dois negócios igualmente bem. Então, ele me disse que, ou eu assumiria, ou ele contrataria um gerente-geral profissional para a vinícola. Não aceitei de imediato, porque pensei comigo mesmo que esse é o tipo do negócio que, depois que entrar, é o que você vai fazer pelo resto da vida. E eu ainda pensava em viajar, em trabalhar em outros países, em fazer outras coisas. Depois de algumas semanas, acabei aceitando e estou muito feliz com essa decisão. No vinho, se você tiver sorte, vai fazer 30 safras. Se tiver muita sorte, 40. E eu sou muito feliz porque, embora só vá completar 35 anos em julho, já vi e administrei 10 safras. E estas 10 foram muito diferentes entre si. Mal posso esperar para ver como serão as próximas 20.

A sua formação é eminentemente técnica (matemática, física, finanças). Nunca pensou em estudar enologia?

"O potencial de envelhecimento de um vinho se deve tanto à sua origem quanto ao talento do enólogo. Ou seja, você pode fazer mesmo os grandes vinhos muito agradáveis de se consumir quando jovens, mas com grande potencial de envelhecimento"

Pensei em obter um diploma em enologia, mas, avaliando o programa, constatei que não era necessário, porque fazer vinho é uma coisa muito básica. A teoria por trás da enologia é extremamente simples. O que fiz foi comprar dois livros clássicos em viticultura e em produção de vinhos. Estudei-os e tomei notas. Quando você tem uma mente científica como eu, e estudou um pouco de química, de física e de biologia, a teoria é simples. O dia a dia e como você vai transformar a teoria em prática, é aí que está o lado divertido da coisa. Você tem a receita de como fazer vinho, mas nunca conseguirá fazer um grande vinho só com isso. E nunca lerá em livros como fazer um grande vinho. Você aprenderá a fazer grandes vinhos falando com enólogos, visitando países produtores, provando milhares de vinhos e tentando identificar o que um enólogo faz, que leva a um estilo de vinho. A diferença entre um vinho comum e algo espetacular são pequenos detalhes, que você precisa acrescentar a seu conhecimento teórico. São tantas variáveis que, quando o vinho está pronto, você pensa: gosto dele, mas foi sorte ou fiz tudo certo?

A tendência atual parece caminhar na direção de vinhos que estão mais prontos para beber assim que são produzidos. Ao mesmo tempo, características como a estrutura e longevidade ainda são muito valorizadas em um vinho. Aparentemente, você se alinha mais à primeira corrente, e seu pai à segunda, concorda?

Meu pai ficaria feliz em ouvir isso. Ele acredita que os vinhos que fazemos hoje têm menos estrutura do que no passado. Meu pai tinha aquela visão de fazer vinhos potentes, tânicos e estruturados. E, se você conversa com pessoas que conhecem nossos vinhos há muitos anos, elas têm essa concepção de que o estilo dos vinhos do Domaine Faiveley ainda é aquele. Quando assumi o Domaine, tinha outra visão dos vinhos que me agradavam. Por quase dois anos gastei muito tempo visitando outras vinícolas, especialmente na Borgonha, conversando com enólogos, observando a sua tecnologia e, é claro, provando seus vinhos e avaliando o que o mercado pensava. E consegui chegar a uma ideia do estilo que queria que meus vinhos tivessem.

Como você descreveria esse estilo?

Você pode sentir alguns taninos e a estrutura, mas minha ideia era que fossem mais acessíveis (quando jovens). Gostaria de dizer “femininos”, mas hoje todo mundo classifica os vinhos como musculosos ou femininos e isso já não faz mais sentido, embora, entre o estilo de meu pai e o meu próprio, exista, de fato, o lado musculoso e o feminino. Acho que, com minha equipe, consegui fazer vinhos macios e que podem ser apreciados mesmo quando jovens, sem comprometer seu potencial de envelhecimento. Algo que descobri é que o potencial de envelhecimento de um vinho não tem a ver com a quantidade dos taninos ou quão potente e estruturado ele é. Esse potencial tem a ver com duas coisas. Primeiro, o terroir de onde provém. Há vinhos que envelhecerão graciosamente, outros não. Mais ou menos como as mulheres. Segundo, o equilíbrio. E esse equilíbrio é diferente a cada safra. Assim, quando falo em equilíbrio, falo de equilíbrio em relação à safra. Há safras que darão origem a Pinots potentes, com muita cor e estrutura. Outras fornecerão Pinots leves, frutados e elegantes. E não adianta tentar transformar as últimas nas primeiras, nem o contrário. Cada safra tem o seu equilíbrio e cabe ao enólogo entender isso. Por isso, não adianta ter um estilo muito definido. O estilo deve ser bastante flexível para encontrar o equilíbrio correto para a safra.

Para chegar a esse estilo, você mudou alguma coisa depois que assumiu?

Primeiro, mudei as pessoas. E tive muita sorte, porque encontrei pessoas extraordinárias e pude mudar o modo como a vinícola estava operando. Mudamos o modo de gerir os vinhedos, a vinificação, mudamos tudo. Só não mudamos duas coisas: vinhedos, porque, em sua maioria, são os mesmos de antes; e adegas, que ainda são as mesmas. Acredito cada vez mais que a adega tem um grande impacto na assinatura do vinho. É impressionante o impacto que variações de temperatura e umidade na adega têm no vinho. Não mudei isso, mas mudei todo o resto.

Voltando às diferenças de estilo entre você e seu pai, cabe perguntar se isso é questão de gosto ou de se adaptar às preferências do mercado?

"Pelo menos na Borgonha, se você disser ‘sou orgânico e aconteça o que acontecer eu não vou usar químicos’, corre o risco de, a cada três ou quatro anos, não colher nada ou colher um terço da safra"

Ambos. Penso que o mercado não está sempre certo e nem sempre se deve segui-lo. Mesmo na França, os jovens da minha idade têm mobilidade muito maior hoje do que há 20 anos. As pessoas que podem comprar vinhos viajam muito e, por isso, têm menos interesse em montar adegas. Na geração do meu pai, na França, as pessoas tinham um trabalho que não era muito internacional, ficavam sempre na mesma região. A globalização não tinha ocorrido e o preço dos grandes vinhos (Premier e Grand Crus) não era tão alto. Por isso, as pessoas podiam comprar esses vinhos e guardá-los em suas adegas por 30 ou 40 anos antes de bebê-los. Isso não existe mais e, se existe, o número é muito menor. Nosso Domaine tem dois pés. Um na Côte de Nuits e outro na Côte de Beaune, onde temos todos os Grand e Premier Crus. E temos uma marca muito importante na Côte Chalonnaise, onde fazemos vinhos mais simples. Meu pai usava as mesmas técnicas para fazer ambos. Assim, se você quisesse apreciar mesmo os vinhos mais simples, os de entrada, teria que esperar, no mínimo, cinco anos. Hoje, se ofereço um vinho simples, de entrada, com cinco anos, mesmo na França, onde as pessoas têm bom conhecimento, vejo que elas não compram, porque a concorrência está vendendo a safra corrente, e elas não confiam (nos vinhos mais antigos). Assim, chegou uma hora em que constatei que, especialmente para os vinhos de entrada de gama, não fazia sentido ir contra o mercado. Você só não pode ir contra o mercado nos grandes vinhos. E, mesmo quando olho os grandes Domaines da Borgonha, vejo que estão fazendo vinhos que são muito bons para se beber agora, mas que têm um histórico de envelhecer muito bem. O potencial de envelhecimento de um vinho se deve tanto à sua origem quanto ao talento do enólogo. Ou seja, você pode fazer mesmo os grandes vinhos muito agradáveis de se consumir quando jovens, mas com grande potencial de envelhecimento.

Como você vê essa tendência para a produção de vinhos naturais, orgânicos ou biodinâmicos?

Não sei se quero responder, porque não acredito na biodinâmica. Como disse, fiz todos os meus estudos em ciências exatas. Não nego o impacto da lua sobre a terra, mas duvido que Júpiter tenha impacto sobre as plantas. E não apenas isso. Conversei com pessoas que praticam a biodinâmica e tentei entender a ciência subjacente a isso. Para mim, tudo tem mais ou menos um propósito. Quando você faz algo, é porque identificou um problema, ou talvez algo que você queira investigar e, por isso, vai naquela direção. Não vejo nada disso (na biodinâmica). No Domaine Faiveley, temos a cultura da razão. Meu objetivo é fazer os melhores vinhos que puder. A biodinâmica é uma cultura dos meios. É o que você faz nas vinhas. Não é sobre os fins. Quando você conversa com um adepto da biodinâmica, sua cultura é “sou biodinâmico e não me importa (o resto)”. Não me importa se meus vinhos serão espetaculares ou qualquer outra coisa. Quanto aos orgânicos, adoro ser orgânico e estamos muito próximos de sê-lo. Mas não queremos ser “certificados”, porque a certificação é uma camisa de força. Hoje, a maioria das doenças conhecidas que atacam os vinhedos não aparecem mais. Em muitas safras, não vamos perder nada. Mas há safras em que, se você não fizer nada, não vai colher. E, pelo menos na Borgonha, se você disser “sou orgânico e aconteça o que acontecer eu não vou usar químicos”, corre o risco de, a cada três ou quatro anos, não colher nada ou colher um terço da safra.

Então você é a favor do que os franceses chamam de “agriculture raisonée” (agricultura da razão)?

Exatamente. E realmente acredito que a ciência faz muito pela humanidade. Tenho a impressão de que a biodinâmica é só um modo de as pessoas brigarem com a ciência. E, só para terminar esse assunto, tenho muitos amigos que são biodinâmicos. E ainda que não acredite nos princípios, há vinhos extraordinários feitos por produtores biodinâmicos. Temos um grande Domaine e, em todos os nossos (vinhedos) Grand e Premier Crus, quase nunca temos que usar quaisquer produtos químicos, porque esses vinhedos são abençoados, ou pela exposição, ou pelo solo, e quase nunca sofrem com doenças. Mas, nos demais vinhedos, se não fizermos nada, haverá anos em que não produziremos um único vinho. Portanto, meu ponto de vista é que a biodinâmica é uma brincadeira de pessoas ricas, que têm muitos Grand e Premier Crus e podem se dar ao luxo de serem biodinâmicos, porque têm vinhedos que não precisam de tratamentos especiais.

Para terminar, alguma intenção de abrir o capital do Domaine Faiveley?

Nunca. Abrir o capital é uma decisão difícil e ruim para uma vinícola. Vender uma empresa familiar é difícil, mas, se vender, não deveria abrir o capital. Todas que o fizeram, pelo menos na França, desapareceram ou tiveram problemas financeiros. Leva-se 25 anos para ganhar dinheiro com vinho e o foco do mercado financeiro é lucro, lucro, lucro.

Vinhos avaliados

 Joseph Faiveley Pouilly-Fuissé 2011

AD 91 pontos
Joseph Faiveley Pouilly-Fuissé 2011

Domaine Faiveley Mistral, Borgonha, França. A oeste da região de Mâcon, ergue-se o monte de Pouilly que, junto a outras colinas calcárias cobertas por argila alcalina, marca a vocação do terroir de Pouilly-Fuissé para a Chardonnay. É um privilégio degustar um vinho branco sem passagem por madeira, já com três anos e com tanta vida. No nariz, revela seu perfil fresco e mineral, com pêssego e pera, que se confirmam na boca em vívida fruta. Com 12,5% de álcool, é acessível, direto, franco, gastronômico e longo. Feito para acompanhar pratos elegantes, peixes e crustáceos. Pronto para beber, mas premiará mais cinco anos de paciência. CB

 Gevrey Chambertin “Les Marchais” 2011

AD 93 pontos
Gevrey Chambertin “Les Marchais” 2011

Domaine Faiveley, Borgonha, França. No momento que encontra a taça, sua cor já revela a elegância que vamos encontrar em seu aroma. Uma complexa onda de camadas com cereja fresca, mineralidade e toques de musgo e menta. Na boca, sua estrutura consegue mostrar-se ao mesmo tempo elegante e marcante, com uma espetacular capacidade de evolução em garrafa. Com 14 a 16 meses em barricas de carvalho, a textura de seus taninos e os elegantes 13% de álcool são parte de seus diferenciais. Experimente, sem medo, hoje com uma boa carne de caça, mas não tenha receio de esquecer algumas garrafas na adega. CB

 Nuits Saint Georges 1er Cru Les Saint Georges 2011

AD 94 pontos
Nuits Saint Georges 1er Cru Les Saint Georges 2011

Domaine Faiveley, Borgonha, França. Profundo e complexo. Um vinho que merece ser degustado com tempo para acompanhar seus momentos. No nariz, o balsâmico e o musgo abrem caminho para a chegada de um buquê de flores, sobretudo lavanda. Deliciosa boca, cheia de vida, com fruta madura, morango fresco, mineralidade e estrutura para evoluir por décadas. Este vinho comprova a fama deste Domaine em privilegiar a longevidade desde sua concepção, fazendo vinhos deliciosos hoje, mas que devem descortinar todo seu potencial a partir de 10 anos de idade. Passa de 14 a 16 meses em barricas de carvalho francês selecionadas por seus grãos finos e tosta leve. O segredo é o equilíbrio, que a cada safra se manifesta de maneira distinta. Em 2011, a acidez teve um papel crucial. Apenas 13% de álcool. Muito longo e capaz de harmonizar hoje com pratos de personalidade. CB

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Por Guilherme Velloso e Christian Burgos

Publicado em 13 de Julho de 2016 às 17:00


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