Revista ADEGA

Especial

Os vinhos do Novo Mundo podem envelhecer?

Quais vinhos do Brasil, Argentina, Chile, Austrália e Estados Unidos podem ser guardados em sua adega sem medo

Arnaldo Grizzo e Eduardo Milan em 15 de Janeiro de 2019 às 13:00

Apesar de os anos se passarem e cada vez mais surgirem provas e mais provas de que o Novo Mundo não é lugar somente de vinhos simples, fáceis, agradáveis, prontos para beber (“comerciais” como diriam algumas pessoas pejorativamente), há quem ainda duvide do potencial de guarda dos vinhos produzidos fora do Velho Continente. Muitas vezes, mais do que a dúvida, impera o preconceito.

Diante de uma garrafa de um vinho francês, italiano, espanhol ou mesmo português, quase ninguém titubeia em depositá-la na adega, deixá-la envelhecer por alguns (ou muitos) anos para depois desfrutar das benesses desse tempo de evolução. Já diante de uma garrafa vinda da Argentina, Brasil, Chile ou Uruguai, por exemplo, a maioria sequer cogita esperar mais de um ano antes de se aventurar a abri-la, como se o tempo não fosse capaz de lhe fazer bem.

Para o jornalista Patricio Tapia, autor do guia Descorchados, a maior referência em vinhos da América do Sul, esse “preconceito” em relação ao potencial de guarda do Novo Mundo deve-se à história, ou seja, há ainda pouca tradição vitivinícola nos países. “Creio que isso se deve principalmente por falta de história, ou porque as vinícolas daqui não têm a história das do Velho Mundo. Mas isso é coisa de tempo”, pondera o crítico.

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O “preconceito” em relação ao potencial de guarda do Novo Mundo deve-se à “pouca” tradição vitivinícola dos países

Realmente, quando pensamos em longevidade, logo vem à mente a história. Enquanto a vitivinicultura nos países do Velho Mundo é ancestral e algumas vinícolas e famílias de produtores ostentam orgulhosamente mais de 200, 300, 400 ou 500 anos de tradição, a maioria das nações do Novo Mundo tem pouco mais de dois séculos de história vitivinícola. “Fazer vinho é relativamente simples, só os 200 primeiros anos é que são difíceis”, já dizia a Baronesa Philippine de Rothschild.

A ideia de que os vinhos do Novo Mundo não envelhecem bem sempre esteve e ainda está no ar. Em 1976, quando Steven Spurrier fez o Julgamento de Paris e os californianos derrotaram os franceses, uma das primeiras críticas que surgiram à degustação foi que a comparação não era totalmente justa, pois os rótulos californianos seriam muito mais fragrantes quando jovens, mas não evoluiriam tão bem quanto os franceses com o tempo. A tese, porém, foi desmentida pelo próprio Spurrier, que repetiu a degustação algumas vezes, sendo a última em 2006 (30 anos após o Julgamento original), com exatamente os mesmos vinhos das mesmas safras. Novamente às cegas, a Califórnia triunfou.

A crítica inglesa Jancis Robinson, que estava presente nessa prova de 2006, não acredita que os vinhos do Novo Mundo “mais densos e ricos”, em geral, não envelheçam bem. “Tintos como Ridge 1971 e Stag’s Leap 1973, que poderiam ser descritos como densos e ricos quando foram feitos, envelheceram soberbamente”, afirmou na época. No entanto, ao ser questionada sobre quais rótulos têm potencial de guarda, disse: “O Novo Mundo é mais como uma loteria – não por inerentemente envelhecerem não tão bem, mas porque são menos homogêneos”.

No entanto, cada vez mais produtores do Novo Mundo vêm mostrando o quão bem seus vinhos podem envelhecer, colocando safras antigas à prova. Mas, segundo Patricio Tapia, mesmo os vinhos de estilo mais fresco feitos atualmente poderão durar. “Um ponto importante é o estilo novo de vinhos que são feitos no Novo Mundo, de maior acidez, de menor madurez. A acidez deve ajudar os vinhos a se manterem frescos durante mais tempo, portanto, todos esses Malbec, Cabernet ou Carménère de novo estilo – feitos nos últimos cinco anos –, é provável que tenham um longa vida em garrafa. É preciso aguardar”, afirma.

Acreditando nesse potencial, aproveitamos para sugerir rótulos e estilos de vinho de países do Novo Mundo que, certamente, são capazes de envelhecer bem, merecendo o título de “vinhos de guarda”.

África do Sul

Muitos podem duvidar do potencial de guarda dos rótulos sul-africanos, mas quem conhece história certamente vai lembrar que a longevidade ajudou a consagrar um dos vinhos mais antigos do país, o Vin de Constance. Esse líquido doce tem fama estabelecida desde o início do século XIX, quando era apreciado por nobres europeus e grandes personalidades históricas, como Napoleão. No entanto, não são esses tradicionalíssimos vinhos doces os únicos sul-africanos capazes de envelhecer com galhardia. Grandes produtores fazem blends de estilo bordalês de alto nível e longevos como os de Kanonkop, KVW, Glen Carlou, Ken Forrester entre outros.

Argentina

A Argentina, assim como o Chile, é um dos países com tradição vitivinícola mais enraizada na América do Sul e, por isso, já repletos de ícones que, durante anos, demonstraram sua capacidade de envelhecer em garrafa. E, com isso, ajudaram a formar uma imagem mais sólida do potencial de guarda dos argentinos como um todo. Além dos rótulos consagrados Catena Zapata, Lagarde e Norton, por exemplo, podemos citar ainda grandes exemplos de vinhos “de guarda” de Carmelo Patti e das Bodegas Weinert (principalmente a linha Cavas e Estrella) e López (especialmente a linha Montchenot), estes últimos envelhecem seus vinhos por longo tempo (mais de 20 anos em alguns casos) em madeira antes de engarrafá-los e lançá-los ao mercado, e eles, depois de tudo isso, ainda perduram por vários anos.

Austrália

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Não dá para falar de vinhos de guarda australianos sem primeiramente pensar no mítico Penfolds Grange, cuja safra original é de 1952 (1951 se contar o primeiro experimento). Esse rótulo não só fundamentou a fama dos Shiraz da Austrália como grandes vinhos, mas também de potencial de envelhecimento. Para se ter ideia do quanto a Penfolds acredita no bom amadurecimento de seu vinho, ela rotineiramente realiza clínicas de “recork” (rearolhamento) de colecionadores de garrafas de safras antigas. A primeira clínica foi realizada em 1991 e, hoje, esse serviço não é oferecido somente aos Grange, mas para quase toda a linha de vinhos da Penfolds.

Penfolds foi um dos primeiros ícones do Novo Mundo a ganhar status de colecionável, ou seja, ser capaz de suportar longa guarda

Portanto, na Austrália, pode-se muito bem apostar na longevidade dos Shiraz, especialmente os de Barossa, mas também não devemos nos esquecer dos Cabernet de Coonawara e dos Sémillon de Hunter Valley, entre os brancos mais longevos do Novo Mundo, que podem envelhecer por 20, 30 ou 40 anos sem problemas. Outros “Highlanders” são os doces botrytizados de Riverina.

Brasil

Acredita-se que a boa acidez seja o pilar que pode dar aos vinhos brasileiros um bom potencial de guarda. Mas há quem explique mais detalhadamente, como o enólogo Miguel Ângelo Vicente Almeida: “Um vinho com grande e bom potencial de guarda precisa possuir uma importante concentração alcoólica, bom conteúdo ácido e muito e bom conteúdo fenólico, cor das antocianas e estrutura dos taninos. Quando jovens, estes vinhos são de difícil degustação porque tudo está em demasia, não existindo harmonia. O tempo é o melhor restaurador de sua eximia qualidade. Ele tudo complexa, equilibra e faz transcender. Naturalmente, ou seja, sem correções do homem, conseguimos obter estes vinhos em regiões temperadas a frias sempre em anos muito específicos. Aqui reside o segredo do vinho brasileiro, particularmente os da Serra Gaúcha e Planaltos Catarinenses. Num vinho brasileiro, para termos importante concentração alcoólica, precisamos de um verão quente e seco, para termos bom conteúdo ácido natural, possuímos solos úmidos, férteis e médias a altas altitudes, os taninos quantitativamente são extraídos em vinificação e qualitativamente mesmo quando pouco polimerizados, ou seja, duros e adstringentes, o tempo e o oxigênio das barricas e das rolhas os transformam”.

Apesar de a história do vinho fino no país ser relativamente recente, algumas safras consideradas espetaculares, como 1999, por exemplo, dão boas pistas de como os grandes rótulos podem evoluir. Nos últimos anos, ADEGA tem provado diversas garrafas dessa safra de diferentes vinícolas, como Pizzato (DNA 99), Marson (Gran Reserva Cabernet Sauvignon), Miolo (Lote 43), Aurora, Valduga (Storia e a linha Enoteca da Famiglia), Don Laurindo etc., e, com isso, comprovado o bom envelhecimento. O mesmo tem ocorrido com vinhos da safra 2005. No entanto, pode-se dizer que o potencial vai além disso, pois rótulos dos vinhos de Guglielmone (Adega Medieval) e Velho do Museu já denotavam essa boa capacidade de guarda há algum tempo. Também não podemos esquecer de projetos mais recentes que vêm envelhecendo seus vinhos em garrafa por alguns anos antes de lançá-los ao mercado, como Maximo Boschi e Cordilheira de Sant’Ana, por exemplo.

Chile

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“O Cabernet chileno já demonstrou que pode durar muito em garrafa”, afirma Patricio Tapia

Antes de se tornar a terra da Carménère, o Chile se consagrou com seus Cabernet Sauvignon, criando exemplares que se tornaram clássicos no mundo. Vinícolas tradicionais produzem ícones longevos como Don Melchor, Casa Real, Don Maximiano, El Principal, Seña, Domus Aurea, Almaviva, House of Morandé, Manso de Velasco etc. Os Cabernet Sauvignon, assim como diversos blends tintos, e mais recentemente os grandes Carménère (como Carmin de Peumo ou Herencia, por exemplo), já se provaram duradouros. “O Cabernet chileno já demonstrou que pode durar muito em garrafa. Mas gosto da ideia do Carignan como um vinho que vive muito tempo”, afirma Patricio Tapia. Já o enólogo Francisco Baettig acredita que a enologia atual chilena valoriza mais o potencial de guarda: “Isso era um aspecto que não se considerava muito no Chile até os anos 1990. O potencial de guarda dos chilenos foi aumentando nos últimos anos graças a uma mudança no estilo, indo para vinhos mais equilibrados, com menos álcool e fundamentalmente com mais acidez”.

Estados Unidos

As diversas provas feitas com os vinhos originais do Julgamento de Paris anos depois da degustação de 1976 mais do que comprovam a qualidade dos rótulos norte-americanos no que tange o potencial de guarda. Os Cabernet Sauvignon, obviamente, são clássicos incontestáveis com representantes como Stag’s Leap, Wine Cellars, Ridge (Monte Bello), Heitz (Martha’s Vineyard), Caymus, Dominus, Screaming Eagle, Abreu, Mondavi, Opus One, Araujo (Eisele), Joseph Phelps (Insignia) etc. Mas também não se deve esquecer dos portentosos Chardonnay, como o do vencedor do Julgamento de Paris, o Chateau Montelena, ou então Hanzell, Pahlmeyer, Peter Michael etc.

Nova Zelândia

Aqui está um país do Novo Mundo vitivinícola que definitivamente não tem grande fama quando se trata de vinhos de guarda. Com produção concentrada em Sauvignon Blanc e Pinot Noir que primam pelo frescor, são raros os consumidores que se dispõem a guardar tais vinhos para observar como eles podem envelhecer. Ainda assim, é possível pensar em alguma guarda para blends mais potentes de Hawke’s Bay, por exemplo.

Uruguai

Um dos fatores que ajudam um vinho a ter certa longevidade é a presença e a robustez de seus taninos, além de acidez e outros fatores que influenciam em sua estrutura, obviamente. Portanto, não é possível ignorar os Tannats uruguaios quando se trata de potencial de guarda. São diversos os produtores que criam vinhos capazes de envelhecer por décadas, como Establecimiento Juanicó, Família Deicas, Carrau, Pisano, Pizzorno, entre outros. Mas não somente os Tannats puros, como diversos blends possuem grande potencial. 


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Artigo publicado nesta revista


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