Escola do vinho

Primitivo ou Zinfandel?

Dois nomes de uma mesma uva, será mesmo? Entenda as diferenças e semelhanças entre elas


Primitivo e Zinfandel são clones diferentes de uma mesma variedade croata

Antes de mais nada, será que há um erro gramatical no título deste artigo? Afinal, Primitivo e Zinfandel são “a uva” ou “as uvas”? Geneticamente, as duas cepas são bastante semelhantes. É bastante lógico que a similaridade genética acabe por se traduzir em similaridade de aromas e sabores. De fato, os traços em comum existentes entre os vinhos elaborados a partir de uma e de outra foram notados pelo professor da Universidade da Califórnia/Davis, Austin Goheen – obviamente familiarizado com a Zinfandel – durante uma viagem à Puglia em 1967, quando provou tintos de Primitivo. Esse foi o pontapé inicial de estudos que, através de análises ampelográficas e de DNA, acabaram constatando e declarando que, realmente, Primitivo e Zinfandel são clones distintos de uma mesma variedade, a croata Crljenak Kastelanski.

A Zinfandel é reconhecida mundialmente como “a” uva da Califórnia, onde é largamente cultivada, seja para a elaboração de varietais ou blends. Teria chegado aos Estados Unidos ainda sem nome, em 1829, pelas mãos de George Gibbs. Na região de Boston, passou a ser chamada de zenfendel ou zinfindal. Já em 1949, com a “Corrida do Ouro”, a uva chegou à Califórnia, passando a ser cultivada em Napa e em Sonoma.

A Primitivo é cultivada principalmente na região da Puglia, no sul da Itália, normalmente relacionada ao famoso “Primitivo di Manduria”. Acredita-se que a Crljenak tenha sido trazida da Croácia para a Puglia pelo mar Adriático no século XIII. Já na Itália, a cepa foi batizada de primativo, do latim primativus, que significa “a primeira a amadurecer”. De fato, as videiras dessa variedade florescem mais cedo, com os frutos amadurecendo antes de outras cepas.

 

Trajetórias distintas, vinhos similares

Clone?

Falar em “clones” no mundo do vinho nada tem a ver com atividades de laboratório, trabalhos de mutações genéticas ou ficção científica. Na verdade, um clone de uva nada mais é do que um subtipo de uma espécie de planta (no caso, da videira), selecionado pelo vitivinicultor para ser cultivada por conta de características específicas, tais como melhor adaptabilidade a uma região e clima, tamanho dos bagos, produtividade etc.

Os tintos de Zinfandel, em geral, são ricos e encorpados. Isso porque essa uva tende a amadurecer de forma irregular, desigual, e, dessa forma, quando a maturação chega para todo o cacho, alguns bagos fatalmente já começaram a desidratar, tomando a aparência de passas. Essa concentração determina sabores intensos de frutas vermelhas e negras, além de elevado teor alcoólico. Da mesma forma, os vinhos produzidos com Primitivo, via de regra, têm como traço característico a estrutura, o alto teor alcoólico e os toques de ameixas e de especiarias. Ambos apresentando taninos macios, acidez moderada e, geralmente, tendendo para um sabor mais frutado, que gera uma sensação de doçura mais pronunciada. Talvez isso explique o porquê do sucesso da cepa por aqui.

 

Confira vinhos feitos com Zinfandel avaliados por ADEGA.

 

Confira vinhos feitos com Primitivo avaliados por ADEGA.

Eduardo Milan

Publicado em 3 de Outubro de 2018 às 12:01


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Artigo publicado nesta revista