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10 regiões menos badaladas de Bordeaux, mas com grandes vinhos

Além da prestigiada Médoc, a região tem grandes estrelas que não contam com a alta grife da classificação de 1855


Há muito mais para descobrir além das grandes regiões

Há momentos que Bordeaux parece se restringir apenas ao Médoc e seus icônicos Châteaux. 

É de lá a principal classificação de vinhos que se conhece, feita em 1855 a pedido de Napoleão III, e isso, na cabeça de muitos, acaba delimitando demais as opções. Mas os vinhos bordaleses não se resumem às denominações clássicas da margem esquerda do estuário do Gironde.

Há muito mais para descobrir e, mesmo ali, no meio de nomes famosos há regiões pouco comentadas.

Sendo assim, ADEGA decidiu listar 10 regiões de Bordeaux que geralmente estão fora do radar da maioria dos consumidores.  

Moulis

Bordeaux não se restringe aos vinhos classificados no Médoc

Quando falamos da macrorregião do Médoc, na margem esquerda de Bordeaux, é comum citar denominações como Margaux e Pauillac, mas é raro ouvirmos falar de algumas como é o caso de Moulis, por exemplo. 

No meio do Médoc, a denominação Moulis-en-Médoc, a menor da região, está localizada quase na junção os dois principais rios da península, o Dorgogne e o Garonne. 

Acredita-se que Moulis deve o seu nome à presença de moinhos no seu território. Também há uma lenda que diz a região quase se tornou a sede da cristandade, destronando Roma. 

A meio caminho entre Margaux e Saint-Julien, a denominação se resume a estreita faixa de 7 km de comprimento, perpendicular ao Gironde. São 610 hectares de uma grande diversidade de terroirs complementares, desde cascalhos do Garonne até argilo-calcários, o que levou os especialistas a apontar que Moulis é “um formidável concentrado do Médoc vitivinícola”. 

Blaye

Blaye é uma das maiores denominações de Bordeaux abrangendo 41 municípios

Do outro lado do Gironde, em frente ao Médoc, fica a macrorregião de Blaye e Bourg, com suas denominações. 

A área da denominação Blaye Côtes de Bordeaux, por exemplo, é de 6.000 hectares, o que a torna uma das maiores de Bordeaux com 41 municípios localizados na área de produção. 

Na margem direita de Bordeaux, os vinhedos de Blaye são caracterizados por serem cultivados em solos ricos e diversos. A paisagem é montanhosa, mas há um horizonte quase marinho das orlas dos rios. O nome “côtes” vem do fato de as vinhas estarem cultivadas principalmente nas encostas. 

A oeste os solos são majoritariamente argilo-calcários e a Merlot é a variedade de destaque. Já ao norte, os solos arenosos e de cascalho concentram a produção de Sauvignon Blanc. No sudeste, há uma grande diversidade de solos e também de castas. 

Os tintos são feitos predominantemente de Merlot, mas podem ser misturados com Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc ou Malbec. Os brancos têm base em Sauvignon Blanc e recebem a companhia da Sémillon e da Muscadelle. 

O microvinhedo Clos de l'Echauguette

Uma curiosidade da região é que dentro da cidadela de Blaye, fica um pequeno vinhedo lendário, o Clos de l'Echauguette – acessível apenas através de um túnel cavado sob a muralha construída para proteção no século 17. Plantado com Merlot, este vinhedo de apenas 15 hectares goza de uma localização excepcional com vista para o estuário do Gironde e produz menos de 1000 garrafas por ano. 

 

Château Clos du Loup 2011 - AD 90 pontos

Château Roland La Garde 2010 - AD 90 pontos

Côtes de Bourg

Ao Sul de Blaye, também na margem direita, em frente ao Médoc, fica Bourg, cuja história vitivinícola remonta ao século II.

Ali teriam sido plantadas as primeiras “Vitis Biturica”, tida como ancestral da Cabernet Sauvignon. A denominação Côtes de Bourg abrange 15 comunas e 3.950 hectares de vinhedos. Os solos geralmente estão em um leito de calcário coberto por uma manta de argila. 

Aqui em Côtes de Bourg teriam sido plantadas uma das ancestrais da Cabernet Sauvignon

Conhecida como “a pequena Suíça girondina”, a denominação permite variedades tintas como Merlot (a maior parte), Cabernet Sauvignon, Malbec e Cabernet Franc; e brancas (pouco mais de 25 hectares no total) como Sauvignon Blanc, Colombard, Sémillon, Muscadelle e Sauvignon Gris.

Aqui também tem ocorrido uma reintrodução da Malbec, uva que antigamente era bastante usada em Bordeaux, mas que foi relegada após o surgimento da filoxera em meados do século XIX.  

Château Haut Castenet 2009 - AD 89 pontos

Fronsac

Na área de Libourne, na margem direita, há denominações clássicas como Saint-Émilion e Pomerol, por exemplo, mas há diversas outras bem menos famosas como as “irmãs” Fronsac e Canon Fronsac, marcadas por um planalto de calcário de Fronsadais (solo argiloso-calcário) e história que remonta a Carlos Magno e a construção de uma fortaleza no local. 

A denominação Fronsac tem 800 hectares distribuídos por sete municípios e Canon Fronsac, com 250 hectares de vinhas, é uma das menores denominações em Bordeaux e se estende pelas duas comunas de Fronsac e Saint-Michel de Fronsac. 

Os vinhedos de Fronsac, a Toscana bordalesa

A região é chamada de “Toscana de Bordeaux” graças à paisagem repleta de encostas. Os solos de Fronsac e Canon Fronsac são principalmente calcários e argilo-calcários nos planaltos e nas encostas, e principalmente argilo-silicioso no sopé das encostas. 

A uva mais amplamente cultivada (quase 80%) é a Merlot. A Cabernet Franc representa quase 15%, a Cabernet Sauvignon tem menos de 10%. 

Cadillac

Uma das regiões mais subestimadas de Bordeaux é Entre-Deux-Mers, a parte da área que fica entre os rios Garonne e Dorgogne, daí o nome “entre dois mares”.

É difícil para os enófilos apontarem alguma denominação de renome na região. Mas lá está, por exemplo, Cadillac, que faz parte da mais “genérica” Côtes de Bordeaux. 

Localizada nas encostas da margem direita do Garonne, a denominação Cadillac era anteriormente chamada de Première Côtes de Bordeaux. Esta denominação deve seu nome à sua localização no topo das colinas com vista para Bordeaux, onde o poeta Ausone viu “os vinhedos debruçados sobre as águas em movimento do Garonne ...”.

Um dos personagens centrais da região foi o Chevalier Antoine Lamothe-Cadillac, um dos grandes incentivadores do vinho local e que foi enviado para a Louisiana para ser governador. Foi graças a ele que, 150 anos depois, surgiu o nome da famosa montadora de automóveis de luxo. 

O terroir é composto principalmente de solos de cascalho, argilo-calcário e cascalho-argiloso. Os vinhos Cadillac Côtes de Bordeaux são feitos a partir de quatro variedades: Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Malbec. 

A Merlot representa 55%, a Cabernet Sauvignon 25%, a Cabernet Franc 15% e a Malbec 5% dos vinhedos. Já os vinhos ditos apenas Cadillac são brancos doces feitos com Muscadelle, Sauvignon Blanc e Sémillon.

Château Carignan Prima 2009 - AD 91 pontos

Château Reynon Rouge 2016 - AD 90 pontos

Loupiac

Outra denominação pouco falada de Entre-Deux-Mers é Loupiac (cujo nome provavelmente deriva de Lupus, lobo) e produz vinhos doces nas encostas da margem direita do Garonne.

São apenas 350 hectares com aproximadamente 50 produtores na região de pequenas colinas, cujos subsolos são de calcário em suas bases e de cascalho argiloso em seus cumes. Propriedades com mais de 10 hectares são raras e apenas as vinhas de encosta têm direito a usar o nome da denominação. 

Loupiac é famosa pelas condições perfeitas para surgimento da Botrytis Cinerea

As brumas matinais e as tardes quentes favorecem o desenvolvimento da Botrytis Cinerea, a podridão nobre.

Três variedades são cultivadas, sendo que a Sémillon é a mais destacada, com 80%, depois a Sauvignon Blanc (15%) e a Muscadelle (5%). O estilo e a proposta fazem lembrar os vinhos de Sauternes e Barsac, que ficam literalmente do outro lado do Garonne.  

Château Peyruchet Les Parcelles du Moulin Rouge 2014 - AD 89 pontos

Sainte-Croix-du-Mont

Assim como Loupiac, a denominação vizinha Sainte-Croix-du-Mont é focada em vinhos doces naturais.

Ela cobre 450 hectares de vinhas ao redor da cidade de Sainte-Croix-du-Mont construída sobre um planalto panorâmico formado por imensos leitos de ostras. Aqui foram cavadas caves espetaculares.

A belíssima região de Sainte-Croix-du-Mont

O famoso “banco de ostras Sainte-Croix-du-Mont” é visível ao longo da parede natural abaixo da igreja e do castelo da cidade. A maioria das conchas estão conectadas, o que sugere que se trata de um recife fóssil de ostras. 

As castas cultivadas nesse terroir impressionante são essencialmente Sémillon (85%) acompanhada por Sauvignon (12%) e Muscadelle (3%). Como a ação da Botrytis não é regular, a vindima é feita em etapas que podem durar de cinco a nove semanas.  

Graves de Vayres

Também na área de Entre-Deux-Mers, os produtores da denominação Graves de Vayres apontam que, no século XIX, seus vinhos eram considerados em patamar similar aos do Médoc ou Saint-Émilion. 

Mas a denominação foi rejeitada em suas primeiras tentativas de registro, pois poderia causar confusão com a denominação de Graves – na margem esquerda, esta sim bem mais conhecida. Graves de Vayres foi aceita em 1931, mas precisou “lutar” por anos para que sua área com cerca de 700 hectares não fosse diminuída por decretos. 

Na região de Entre-Deux-Mers estão os vinhedos de Graves de Vayres

A denominação é marcada por ser mais próxima do rio Dorgogne, com solos predominantemente cascalhos e arenosos ao redor das comunas de Vayres e Arveyrs. 

Lá produz-se desde tintos com base em Cabernet Sauvignon e Merlot, esta última predominando, até brancos e brancos doces com Sauvignon Blanc, Muscadelle e Sémillon.  

Saint-Foy-Bordeaux

Na ponta leste de Entre-Deux-Mers fica a cidade de Sainte-Foy-La-Grande, cuja denominação que a circunda faz parte da mais genérica “Côtes de Bordeaux” desde 2016.

Na orla do Gironde, na foz do Dordogne e do Lot-et-Garonne, as vinhas de Sainte-Foy Côtes de Bordeaux ocupam 350 hectares, distribuídos por comunas que cercam a pitoresca cidade medieval. 

O solo é predominantemente argilo-calcário e as castas tintas são: 65% Merlot, 17% Cabernet Sauvignon, 15% Cabernet Franc, 3% Malbec. As brancas: 60% Sauvignon, 10% Muscadelle, 30% Sémillon. Tintos (maioria), brancos e brancos doces são produzidos ali. 

A inclusão de Saint-Foy na Côtes de Bordeaux possibilitou que esta denominação pudesse produzir também vinhos doces, que antes não eram abarcados pelas outras regiões. 

Château Les Paris 2014 - AD 89 pontos

Cérons 

Dentro de Graves, as denominações mais destacadas são Graves, Sauternes, Barsac e Péssac-Léognan. E uma é quase que completamente esquecida: Cérons.

Reconhecida desde 1936, a noroeste de Barsac, no coração de Graves, a denominação leva o nome do rio Ciron que percorre a área e promove o desenvolvimento da podridão nobre. 

Cérons está localizada no coração de Graves

Os seus vinhos doces provêm de três comunas (Cérons, Illats e Podensac) e apenas 27 hectares, com as variedades cultivadas sendo Sémillon e Sauvignon Blanc. 

Cérons faz parte da Union des Grands Vins Liquoreux de Bordeaux, também dita “Sweet Bordeaux”, uma marca de vinhos brancos criada em 2009, que engloba oito denominações de origem controlada, como: Bordeaux Superior, Côtes de Bordeaux Saint-Macaire, Sainte-Croix-du-Mont, Loupiac, Cadillac, Premier Côtes de Bordeaux, Cérons e Bordeaux Moelleux. 

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Da redação

Publicado em 25 de Julho de 2021 às 13:00


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