Revista ADEGA
Busca

Garrafas de vinho

Garrafas transparentes podem prejudicar o vinho?

Descubra como o “gosto de luz” pode arruinar o seu vinho


Goût de lumière refere-se à contaminação do vinho pelos raios UV, que podem deixar um vinho fresco e saboroso com aromas sulfurosos

Assim como era costume envazar azeites e cervejas em garrafas escuras, as garrafas de vinho também seguiam a mesma regra. A razão para isso foi sempre a mesma: para que o líquido ficasse protegido da luz do sol.

A primeira notável exceção a esse costume surgiu com o Champagne Cristal. Em 1873, o Czar Nicolau II da Rússia encomendou uma cuvée especial e personalizada para Louis Roederer. Para tornar o vinho ainda mais luxuoso, ele foi engarrafado em uma garrafa de cristal transparente – muito mais cara e sofisticada que as garrafas normais. Até hoje, o Champagne Cristal é vendido em sua icônica garrafa transparente, mas ela é embalada em uma folha de celofane laranja, que protege o vinho dos raios ultravioleta (UV).

Leia mais:

Curiosos nomes de garrafas de vinho

Como foi definido o volume de 750 ml para a garrafa de vinho?

Qual a relação entre a cavidade do fundo da garrafa e a qualidade do vinho?

Com o sucesso cada vez maior de vinhos e espumantes rosados, sem falar do novo nicho dos brancos elaborados com contato prolongado com as cascas, o número de rótulos engarrafados em vasilhames transparentes tem crescido bastante. A vantagem de engarrafar um vinho como esses em garrafas transparentes é óbvia: é o melhor modo de mostrar sua bela cor, uma eficiente estratégia de mercado para seduzir o consumidor. O aspecto visual de um vinho, muitas vezes, dá pistas do que está por vir e a cor salmonada e exuberante de um rosado da Provence, por exemplo, certamente desperta a vontade de tomar uma taça gelada em um dia ensolarado.

Qual a desvantagem de envasar um vinho em uma garrafa transparente? O risco de o vinho apresentar o chamado “goût de lumière”. Esta expressão francesa, “gosto de luz” em uma tradução literal, parece até uma descrição elogiosa, entretanto, tem mais em comum com o “goût de bouchon”, ou bouchonné, do que com uma qualidade positiva. Ela refere-se à contaminação do vinho pelos raios UV, que podem deixar um vinho fresco e saboroso com aromas sulfurosos, que lembram alho ou repolho cozido – o que certamente não gostaríamos de encontrar em um bom rosé.

Reações

[Colocar Alt]

A luz provoca reações químicas com a riboflavina (vitamina B2) e os aminoácidos presentes no vinho, resultando em componentes sulfurosos como o dimetil dissulfeto (DMDS) e o metanotiol (CH4S), famosos pelos aromas desagradáveis. Com as reações químicas, a fruta do vinho vai embora e dá lugar a um aroma oxidativo e de papelão. Um vinho que esteja bastante contaminado com o goût de lumière não será consumido, mas o problema são as garrafas levemente contaminadas. Para os enófilos com pouca experiência ou que não conhecem o vinho que está sendo provado, o defeito pode passar despercebido. Os tintos são bem menos afetados porque os taninos os protegem, evitando essas reações.

As garrafas mais escuras conseguem bloquear mais de 90% dos raios UV, enquanto as verdes mais claras boqueiam mais de metade da luz nociva. As garrafas transparentes, por outro lado, oferecem uma proteção reduzida, de não mais que 10%, à radiação ultravioleta. Segundo o Master of Wine Alex Hunt, dependendo da intensidade e do tipo de vinho, a luz pode arruinar uma garrafa em apenas uma hora. Tom Stevenson, um dos maiores especialistas em espumantes do planeta, tem chamado atenção para o problema e propôs uma experiência para que seus leitores comprovem como a luz pode ser nociva ao vinho: compre duas garrafas de espumante rosado de vasilha transparente de um fornecedor confiável. Guarde uma delas no escuro e deixe a outra exposta à luz por uma semana. Abra as duas garrafas e compare. Segundo Stevenson, a diferença é alarmante. Para deixar o problema ainda mais grave, não é apenas o sol que emite raios ultravioleta. Lâmpadas fluorescentes e dicroicas também são fontes de raios UV.

Devemos então evitar a todo o custo qualquer vinho envasado em garrafa transparente? Claro que não, mas é muito importante saber como a loja ou importadora armazena esse tipo de garrafa e não deixar seus vinhos expostos à luz. As lâmpadas de LED quase não emitem raios UV e vale lembrar que as portas de vidro dos bons fabricantes de adega contam com um filtro para radiação ultravioleta. Tomando os devidos cuidados, é possível aproveitar e exibir à mesa as belas cores dos rosados e brancos que, felizmente, estão cada vez mais na moda.

Veja também:

 A história da garrafa de vidro

Quanto tempo pode durar o vinho em uma garrafa aberta?

ASSINE JÁ A REVISTA ADEGA. DESCONTOS DE ATÉ 76%

Rodrigo Mainard, diretor de marketing da Mistral
Publicado em 26/11/2019, às 15h00 - Atualizado às 15h23


Mais Notícias