Grands Châteaux

A história de sucesso do Château Clinet, um ícone do Pomerol

Enólogo por trás do sucesso do Château Clinet gosta de correr maratonas


Correr maratonas não é para qualquer um. Mesmo que você percorra os 42,195 quilômetros em um ritmo lento, bem abaixo do que um corredor profissional faria, ao final, com certeza estará completamente exausto. Uma prova tão longa requer não somente do corpo, mas também da mente. É preciso muito treino e dedicação. Não se corre uma maratona “para brincar”. Deve-se estar completamente preparado.

Ronan Laborde gosta de correr maratonas e já participou de algumas. Em 2004, aos 23 anos, no auge da forma, além ocupar ótimas posições em corridas das quais participava, ele já estava assumindo a enologia do Château Clinet, uma das mais prestigiadas propriedades de Pomerol, em Bordeaux. E aqui também se destacou, mas não como “fundista”, e sim como um velocista, pois, em pouco tempo, seu talento ajudou a forjar vinhos que receberam excelentes críticas e altas pontuações.

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Talentoso e determinado, ele abandonou as corridas para administrar Clinet, que pertence à sua família desde 1999, quando seu pai Jean-Louis Laborde comprou-a de uma empresa de seguros. Na época, Jean-Michel Arcaute (ex- -proprietário) era o enólogo responsável. No entanto, Arcaute morreu em um acidente de barco em 2001. Tão logo tomou as rédeas do negócio, Ronan, produziu transformações substanciais na propriedade: replantando cerca de 20% do vinhedo (tido como um dos mais antigos do Pomerol – diz-se que há vestígios de vinhas que remontam a 1595), implementando cultivos com práticas sustentáveis, reconstruindo as instalações vinícolas e reorganizando a distribuição de Clinet.

Antes de chegar aos Laborde, contudo, o château havia sido propriedade da importante família Arnaud no século XIX. Somente nos anos 1980 é que ele passou para as mãos de Georges Audy, um negociante de vinhos. Arcaute entrou no negócio quando se casou com a filha de Audy e, em 1987, chegou a chamar Michel Rolland como consultor, época em que o vinho de Clinet foi mais opulento e cheio de carvalho novo.

Tesouros ultrasselecionados

Sob o comando de Ronan, todavia, o perfil do vinho passou a mudar, com menos madeira nova, menos Cabernet Sauvignon e também com blends ainda mais selecionados. O vinhedo de Clinet fica no planalto perto de Pétrus e Lafleur. Um de seus mais prestigiados lotes, do Merlot “La Grand Vigne”, fica ao lado da igreja de Pomerol e tem vinhas de cerca de 85 anos. Os solos são ricos, com uma mistura de camadas de areia, argila e cascalho.

As uvas que entram na adega sofrem um rigoroso processo de seleção. Após a seleção inicial na chegada, passa-se por uma máquina Airtech de alta precisão e depois há ainda mais uma etapa de delicada triagem manual para garantir que apenas as melhores uvas cheguem às cubas. Uma prensa de última geração controla a extração do mosto das cascas. E vasilhas em forma de cone permitem que as uvas sejam transferidas suavemente por gravidade para suas cubas customizadas correspondentes.

Para misturar cada parcela de vinhas, a adega dispõe de uma seleção de pequenas cubas de aço inox com regulação térmica, nas quais a fermentação ocorre. O mosto de cada parcela é vinificado separadamente para preservar suas características, sendo posteriormente envelhecido também separadamente em barris. Apenas na hora do blend as parcelas são finalmente reunidas.

Os vinhos envelhecem em média 16 meses em 60% de barris novos de carvalho francês, alemão e austríaco, e o tipo de barril usado para envelhecer cada parcela é cuidadosamente selecionado para cada variedade. Clinet tem uma seleção de barris de diferentes tipos, tostas e tamanhos que permite equilibrar as características que desejam para cada parcela.

Não amava as mulheres?

O Château Clinet tem 11,3 hectares de vinhedos, os quais estão divididos em 88% Merlot e 12% Cabernet Sauvignon. Por ano, ele produz 45 mil garrafas. O segundo vinho, Fleur de Clinet, nasceu em 1997, mas hoje representa mais de 40% da produção. No entanto, uma das maiores mudanças de Ronan desde que assumiu foi ampliar a marca, criando uma linha de tintos e brancos de denominação genérica de Bordeaux, engarrafados sob o nome “Ronan by Clinet” com uvas de produtores de Entre-deux-Mers, Côtes de Bordeaux Castillon e Francs, e Lussac-Saint-Émilion.

Em 2011, Clinet fez uma “ponta” no primeiro filme da trilogia “Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres”. Uma garrafa da safra 2005 aparece sendo servida durante uma cena de jantar na casa de Martin Vanger (papel de Stellan Skarsgård) com Mikael Blomqvist (Daniel Craig). A “publicidade” ajudou a alavancar ainda mais a fama de Clinet.

Apesar da rapidez com que seus vinhos caíram nas graças dos críticos após suas mudanças, Ronan não parece “cansado”. Depois do sprint inicial, seu trabalho no Château Clinet parece ter fôlego de maratonista, preparado para longos trajetos, assim como seus vinhos para longa guarda.

AD 97 pontos

CHÂTEAU CLINET 1989

Château Clinet, Bordeaux, França (Clarets – sob encomenda). Com vinhedos mais ao norte na região. É um passeio olfativo. Perfil com muita carambola, temperado com miolo da jabuticaba e um pouco do dulçor da atemoia. Os taninos estão muito bem e presentes. Um pouquinho de Cabernet Sauvignon que também se demonstra. Está bastante inteiro. “Ainda vai explodir”. CB

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Arnaldo Grizzo

Publicado em 11 de Novembro de 2019 às 14:00


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