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    A história do Auerbachs Keller, o bar de vinho que inspirou o escritor Goethe

    O espaço foi palco para uma das cenas de Fausto, obra-prima do autor

    por Arnaldo Grizzo

    Adega foi o primeiro lugar onde Mefisto levou Fausto para lhe mostrar os prazeres da vida, após selarem um pacto por sua alma

    Logo, a exemplo da videira, deitar vinho a mesa pode, apesar de ser madeira. Grande abismo, ó natureza! Quem rastreia os teus caminhos! Ora sus, mortais mesquinhos! Rolhas fora! Aí vão da mesa borbotar caudais de vinhos”. Assim, segundo a lenda, de furos na mesa de madeira do porão de um dos mais antigos restaurantes de Leipzig, na Alemanha, Mefistófeles fez jorrar diferentes vinhos para uma plateia de estudantes bêbados.

    É graças a essa passagem no Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe, que o Auerbachs Keller é famoso até hoje. O primeiro registro da adega localizada no centro da cidade – em que o mais celebrado escritor alemão estudou em sua juventude – data de 1438. O local atualmente fica sob a Mädlerpassage, uma passagem histórica coberta em 1912, que substituiu o antigo Auerbach Hof, um complexo edifícios comerciais erguido por volta de 1530 a mando de Heinrich Stromer (1482-1542), vereador, professor de medicina e reitor da Universidade de Leipzig.

    Leia mais:

    + O vinho de Tutancâmon no Egito

    + O vinho e a história da humanidade

    + Os deuses do vinho; além de Baco, quem são eles?

    Stromer costumava ser chamado de doutor Auerbach, nome de sua cidade natal, na região da Baviera. Quando ele reabriu o porão-adega, o local adotou seu nome. O jovem Goethe frequentava bastante a adega de Auerbach enquanto estudou na Universidade de Leipzig entre 1765 e 1768 (diz-se que ao menos três garrafas de vinho consumia sempre). Lá, o escritor via rotineiramente duas telas datando de 1625, uma retratando o lendário mágico e astrólogo Johann Georg Faust bebendo cerveja com alunos, e outra em que Fausto está montado em um barril de vinho voando para fora do bar, obviamente usando dos poderes do demônio. Goethe, contudo, conhecia bem a lenda de Fausto desde a infância e, ao finalizar a primeira parte de seu livro “Faust, eine Tragödie” (Fausto, uma tragédia), nela incluiu uma cena no Auerbachs Keller.

    Vinho e fogo

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    Na monumental obra de Goethe, logo após Deus e Mefistófeles apostarem a alma de Fausto, o demônio aparece para o erudito em seu estúdio. “Filosofia, Leis e Medicina, Teologia ‘té, com pena o digo, Tudo, tudo estudei com vivo empenho! E eis-me aqui agora, pobre tolo, Tão sábio como dantes”, exclama Fausto desolado com os anos a fio que passou estudando para, já velho, chegar à conclusão que nada sabe. Nesse momento, ele sela um pacto com o demônio por sua alma em troca da felicidade e dos prazeres da “juventude que lhe foi roubada”.

    O diabo então oferece a Fausto uma série de diversões. O primeiro lugar para o qual eles vão é uma taberna, o Auerbachs Keller, onde encontram um alvoroçado grupo de estudantes se embebedando. Mefistófeles se junta à balburdia juvenil, mas Fausto não parece entusiasmado. Em um momento, diante de algumas reclamações de que o vinho servido não era bom, o diabo pergunta aos jovens que vinhos gostariam de beber. Cada um cita um favorito. O primeiro pede um vinho do Reno. O segundo, Champagne. Um terceiro diz que prefere “vinho de senhoras, docinho”, ao que Mefisto contesta: “Aí tem Tokay então”.

    O diabo começa a fazer furos nos cantos da mesa e diz aos jovens para tapar os buracos com cera. Todos pensam que ele está brincando, mas, assim que termina o último furo, solta o feitiço que citamos no começo desse texto e o vinho começa a jorrar. Os rapazes se alegram, mas Mefistófeles logo alerta: “Não deixem o vinho cair no chão”. Um dos jovens, contudo, derrama algumas gotas, que imediatamente se transformam em labaredas. O clima festivo logo se dispersa e os rapazes querem tirar satisfação com o demônio. Eles então empunham suas facas e avançam contra ele.

    O diabo lança outro feitiço e faz com que os estudantes acreditem estarem em um vinhedo repleto de grandes uvas. Com suas facas, eles se preparam para cortar os cachos sem perceber que estão prestes a cortar os narizes uns dos outros. Pouco antes e isso ocorrer, Mefisto encerra o feitiço, despede-se com Fausto e desaparece, voando em um barril, deixando todos estupefatos.

    Salas históricas

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    As placas de entrada do Auerbachs Keller, além de uma das estátuas de Matthieu Molitor, que mostra os estudantes prestes a cortar seus narizes

    Essa cena teria se passado no Auerbachs Keller, um dos restaurantes mais badalados de Leipzig e, segundo um estudo norte-americano, o quinto mais conhecido do mundo, depois do Hofbräuhaus de Munique, do Caesar’s Palace de Las Vegas, do Café Sacher de Viena e do Hard Rock Café de Los Angeles. Representações da passagem de Fausto pelo porão não estão apenas no restaurante, mas em vários locais de Leipzig, com estátuas (duas em bronze esculpidas por Matthieu Molitor indicam o local do wine bar), monumentos, livros, souvenires etc.

    No Auerbachs Keller, há diversas referências e cinco salas históricas: a Fasskeller (sala das barricas), a Lutherzimmer (sala de Luther), a Goethezimmer (sala de Goethe), a Alt-Leipzig (Velha Leipzig) e a Großer Keller (Grande Adega). Há ainda o bar Mephisto, onde uma das especialidades é o “Fogo de Mefisto”.

    Além de poder se refestelar com uma lauta refeição, os visitantes ainda podem se deparar com o diabo, assim como Fausto e os estudantes da fábula, já que um ator faz as vezes de Mefistófeles para encenar alguns trechos da lenda de Fausto e também servir os incautos. Se você não se vê problema em negociar sua alma, aí está uma boa aventura.

    Veja também:

    + O vinho do Império Romano

    + A história do vinho de Falerno

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    curiosidades do vinhoGoetheAuerbachs Keller

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