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Bando e o começo da produção de vinhos em quatro regiões italianas

O Bando também chamado de "Proclamação por Cosimo II de Médici" foi responsável por nomear e definir as fronteiras de produção de Chianti, Pomino, Carmignano e Valdarno di Sopra


Em setembro de 2016, o Salão dos Quinhentos do Palazzo Vecchio foi palco da grande celebração dos 300 anos do Bando – ou proclamação por Cosimo III de Médici –, que definiu as fronteiras da produção para Chianti (hoje Chianti Classico), Pomino, Carmignano e Valdarno di Sopra.

O Bando representou a primeira peça formal de legislação na história do vinho que classificou os nomes de quatro áreas e delimitou suas fronteiras, que permanecem basicamente inalteradas até hoje. E não foram apenas nomes regionais e fronteiras demarcadas, mas declarações de produção, órgãos de governança (Congregações, precursores do moderno Consorzio), regras de exportação e multas por fraude. O objetivo era aumentar o perfil histórico dessas áreas vitivinícolas, oferecendo um estímulo econômico para aqueles que trabalhassem juntos pela qualidade. As AOCs, DOCs e AVAs ao redor do mundo compartilham as mesmas intenções e enfrentam os mesmos problemas que Cosimo III teve no começo do século XVIII.

Celebração dos 300 anos da proclamação de Cosimo III de Médici ocorreu no Salão dos Quinhentos do Palazzo Vecchio e teve discurso do  então Primeiro Ministro italiano

Naquela noite, no Teatro de Ópera de Florença, os representantes regionais e seus convidados ouviram o Ex-Primeiro Ministro Matteo Renzi, que foi direto em seu conselho para os produtores toscanos: “A Itália precisa parar de ter medo da globalização e recuperar o papel de liderança, começando com o turismo e a cultura do vinho e da comida, e Chianti Classico é um veículo extraordinário para o sucesso de nosso país”. Esse encorajamento para o futuro de Chianti Classico e da marca Gallo Nero foi bem recebido juntamente com os três objetivos que haviam sido apresentados mais cedo naquele dia:

- Uma parceria entre Chianti Classico e Champagne;

- Formalização junto à UNESCO para se tornar um Patrimônio Mundial;

- Criação do Distrito Rural de Chianti, reconhecendo a vocação da região como uma das mais importantes na produção de vinho e comida na Itália.

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O último objetivo é emprestar a imagem dos vinhos da região para ajudar a gerar mais turismo, hospitalidade, gastronomia e artesanato. O segundo é natural ao acompanhar as ações que tanto Bordeaux quanto a Borgonha fizeram este ano. O primeiro é uma ideia muito inteligente de relacionar os dois “C”s, um branco e espumante e um tinto e tranquilo que não têm nada em comum além de serem marcas de vinhos historicamente reconhecidas e, portanto, não podem competir entre si.

Esse conceito atraiu Manfredi Minutelli, gerente europeu de desenvolvimento de negócios do Alibaba, que afirmou que a geração Y é o alvo principal, representando os consumidores presentes e futuros. O consumo na China é 80% de vinho tinto e a França tem 55% do mercado. A Itália representa só 6%, mas vem crescendo rápido. A maioria dos vinhos de entrada não têm conexões históricas e marcas que possam ser desenvolvidas, especialmente via internet. Chianti Classico, por sua vez, é muito forte nesse ponto.

Durante dois dias, as reuniões foram mais históricas do que vínicas, mas, no jantar de gala, no sábado à noite, logo depois de um maravilhoso programa musical dos principais cantores do Ópera de Florença acompanhados de um esplêndido coro, tive a sorte de estar na mesa com Laura Bianchi, do Castello di Monsanto (Barberino Val d’Elsa), cujo 2014 (de um ano difícil) é o melhor que provei até hoje, e Paolo De Marchi, de Isole e Olena, cujo Cepparello 2012 estava soberbo. No entanto, também tive a sorte de participar do Tuscan Tasting anteriormente – organizado por David Gleave, sob o título “Além do Bando”.

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Como a prova cobriu toda a Toscana, Gleave foi muito mais longe na história, chegando aos etruscos, que trouxeram as vinhas para essa parte da Itália há 2.700 anos. Reconhecendo que “muita coisa mudou desde os etruscos, ainda assim, quando se visita os vinhedos de Chianti, o passado parece próximo”. A influência dos ocupantes anteriores é misteriosamente evidente e “precisamos de uma combinação do cinzel dos arqueólogos, análises forenses dos historiadores e a imaginação dos romancistas para dar sentido à grande história do vinho toscano”. Giacomo Tachis, o enólogo por traz do desenvolvimento de Tignanello e Sassicaia, disse certa vez que “a história do vinho da Toscana é a história da uva Sangiovese e a forma com que ela se adaptou às diferentes regiões”. Isso é admiravelmente ilustrado pelos vinhos das quatro regiões de Cosimo III.

Chianti Rufina

Incluindo a DOCG Chianti Rufina e Pomino, a região é a mais setentrional das zonas de Chianti, com algumas das maiores altitudes e, devido às brisas que passam através do Vale Sieve descendo pelas colinas dos Apeninos, é certamente a mais fria. A Sangiovese (mínimo de 70%, mais Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc até no máximo 15%) mostra finesse, definição e taninos finos que poucas outras regiões de Chianti conseguem igualar. Pomino Bianco usa Chardonnay, Pinot Blanc e Pinot Gris. Os tintos permitem os dois Cabernets, Merlot, Malbec, Pinot Noir e até Syrah. Com exceção do Castello Nipozzano, de Marchese dei Frescobaldi, os melhores vinhos de Pomino são da Villa di Petrognano, feitos por Federico Giuntini, da Selvapiana, cujos 60% Sangiovese, 20% Cabernet Sauvignon e 20% Merlot formam um blend maravilhoso, mostrando tanto madurez quanto potencial.

Fattoria Selvapiana tem estado na família Giuntini desde 1827, com 54 de seus 245 hectares com vinhas em solo argilo-calcário. “Vigneto Bucerchiale” é um Chianti Classico Riserva raro na DOCG Rufina, sendo 100% Sangiovese. O 2012 é um vinho de grande pureza e profundidade natural, já um clássico. Perguntado sobre quais vizinhos recomendaria, Federico Giuntini escolheu as propriedades de Veroni, Frascole, Colognone e Il Pozzo.

Carmignano

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Chianti quer se tornar Patrimônio Mundial da UNESCO

Localizada 16 quilômetros a noroeste de Florença, Carmignano, com apenas 200 hectares em uma série de pequenas colinas, é a menor DOCG da Itália. Altitude moderada, exposição favorável, boa ventilação, insolação adequada e precipitação suficiente se unem para criar condições perfeitas para vinhas nos solos arenosos, calcários e argilosos. As uvas de Cabernet foram introduzidas por Catarina de Médici no século XVI e ainda são conhecidas localmente como Uva Francesca, e representam 20% da produção. Sangiovese representa 50% com cerca de 10% de Canaiolo Nero para os tintos; e Trebbiano, Malvasia de Chianti e Canaiolo Bianco para os brancos.

As principais propriedades são Capezzana, de Conte Contini Bonacossi, onde as vinhas foram plantadas no ano de 804 e atualmente os 90 hectares são orgânicos. Seu Barco Reale di Carmignano 2014, com 35% Cabernet Sauvignon, foi bom para a safra, mas facilmente ultrapassado pelo Villa di Capezzana 2012, com 80% Sangiovese, e o Ghiaie della Furba 2010, blend de Cabernet, Syrah e Merlot, ambos com bom futuro. Ainda melhor (juntamente com o soberbo Vin Santo 2009) estava o Villa di Trefiano 2010 Carmignano Riserva, um Sangiovese 80%, Cabernet 10% e Canaiolo 10% single vineyard, que mostrou bela personalidade, firmeza e equilíbrio. Perguntado sobre quais vizinhos recomendaria, Beatrice Contini Bonacossi escolheu as propriedades de Ambra, Piaggia, Le Fermete e Pratesi.

Valdarno di Sopra

Localizada nas colinas leste e oeste do vale Arno, entre a planície de Arezzo e as colinas florentinas, esta DOC só foi criada em 2011, mas a região era favorecida por vinhas desde Plínio, o Velho, e confirmada por Cosimo III. Uma mistura de variedades francesas tintas e brancas estão plantadas lado a lado com a toscana Sangiovese. A área, conhecida como Colli Aretini, espalha-se por cerca 15 comunas com 86 produtores, dos quais o mais reconhecido é Petrolo, de Luca Sanjust. Ele acha que “o valor da DOC Valdarno di Sopra é sua condição ‘pedoclimática’ particular. Protegida dos ventos frios do nordeste e noroeste pelas montanhas, ela se beneficia das brisas mornas através do vale de Maremma, amadurecendo a Sangiovese de uma maneira fantástica para produzir algo refinado, crocante e brilhante”. Provando seu Boggina 2014 (em carvalho) e BogginAnfora 2014 (em ânfora), é preciso admitir esse pensamento, enquanto seu Torrione 2013, com 10% de Merlot, é muito bom, mas menos impressionante. Finalmente, o Galatrona 2014 (nem um toque de fraqueza nesses 2014), o icônico Merlot 100% de Sanjust, é rico, terroso, todo potência e elegância, verdadeiramente um grande vinho. Perguntado sobre quais vizinhos recomendaria, ele escolheu Tenuta Setteponti, Tenuta del Borro e Podere Carnasciale.

Chianti Classico

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"Chianti Classico é um veículo extraordinário para o sucesso de nosso país”, afirmou Matteo Renzi

Os limites originais do Bando ficam entre as províncias de Florença e Siena, que cobrem os municípios de Castellina, Gaiole, Greve e Radda, e partes de Barberino Val d’Elsa, Castelnuova Berardenga, Poggibonsi, San Casciano e Tavarnelle in Val di Pesa. Entre os 7.200 hectares registrados como Chianti Classico, os dois principais tipos de solos são albarese – um arenito temperado –, e galestro – uma marga de giz cinza-azulada –, com altitudes que variam de 250 a 610 metros. A Sangiovese precisa ser 80% ou mais do blend, com, no máximo, 20% de outras tintas indígenas ou internacionais permitidas. Os estilos, obviamente, variam, mas a personalidade do Chianti Classico aflora.

Das três propriedades famosas degustadas, selecionei apenas um tipo de vinho: seus “Gran Selezione”, o topo da pirâmide do Gallo Nero, geralmente de single vineyard e vinhas velhas. Fontodi 2013 “Vigna del Sorbo”, de Giovanni Manetti, mostrou-se concentrado, com profundidade terrosa, com pelo menos uma década de vida. O Felsina Berardenga 2010 “Colonia”, da família Mazzocolin, estava polido soberbamente com muita energia e pegada. O Isole e Olena 2006, ainda jovem, de Paolo di Marchi, com 12% de Cabernet Franc e 8% de Syrah, teve uma presença natural pura e profundidade. Tais vinhos realmente estão no topo da gama.

Conclusão

Uma safra ou duas das propriedades anteriormente citadas estão na minha própria adega, juntamente com outros de Bindi Sergardi, Castell’in Villa, Nittardi, Rocca di Montegrossi e Volpaia. Mas para os amantes dos vinhos das quatro regiões históricas de Cosimo III, talvez uma adega não seja suficiente.

Steven Spurrier

Publicado em 6 de Fevereiro de 2019 às 17:00


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Artigo publicado nesta revista