Entrevista

Oscar Ló e os caminhos do vinho nacional

Presidente da Ibravin, Oscar Ló aponta qual é o cenário do vinho brasileiro


Oscar Ló é o presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) durante o biênio 2018/2019. Ló, presidente da Cooperativa Vinícola Garibaldi e da Federação das Cooperativas Vinícolas do Rio Grande do Sul (Fecovinho) foi vice durante a gestão de Dirceu Scottá, que deixa o cargo. O agricultor Marcio Ferrari, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Farroupilha e coordenador da Comissão Interestadual da Uva, foi conduzido à vice-presidência para o período. ADEGA conversou com o presidente para saber qual sua visão do setor e quais serão as prioridades nas ações do Ibravin para o seu mandato.

Parece ser um processo corriqueiro no Ibravin que o vice, que está acompanhando a gestão, assuma a presidência logo em seguida?

Pelo menos nos últimos mandatos foi assim que aconteceu e a previsão é que o próximo seja assim. Pois meu vice é do sindicato e o próximo presidente vai ser dos produtores. A tendência é que o Marcio seja o presidente no próximo biênio. É um rodízio entre as entidades do setor.

Quais os desafios da indústria hoje? Qual o alvo da atuação do Ibravin?

A primeira frente é trabalhar muito forte a questão dos produtores e da qualidade da matéria-prima. Não que não tivesse ocorrido até agora, mas intensificar programas de melhoria, intensificar o PAS Uva, ter um acompanhamento mais direto ao produtor para melhorarmos cada vez mais a matéria- -prima. Isso é fundamental. Em segundo lugar, tentar melhorar o mercado. Devido a essas situações de safra e da economia, alguns seguimentos conseguiram manter um crescimento e outros tiveram dificuldade. O setor estava vindo num crescimento, mas, nos dois últimos anos, houve retração em alguns itens e nosso desafio é retomar a comercialização e crescer em todos os seguimentos, principalmente no suco de uva. O suco continuou crescendo, mas em números menores, e agora pode retomar. Os espumantes também, mas é um produto com potencial muito grande para voltar a crescer.

Temos que descobrir o nosso foco. Qual nossa vocação? Espumante e suco de uva. Vamos focar. Não quer dizer que tem que abandonar o vinho fino, mas precisa trabalhar com direcionamento

Há volume de matéria-prima para o crescimento contínuo do suco de uva? Existe, pois há uma ampliação de área plantada. Qual a matriz produtiva do nosso setor?

Agricultura familiar. Todo esse produto que hoje está sendo destinado para suco, há 10 anos estava sendo destinado para vinho de mesa vendido a granel. Uma commodity, que não tinha muito valor comercial e desmotivou muitos produtores. E, nos últimos 10 anos, graças ao espumante e ao suco de uva, o agricultor voltou a investir na propriedade, pois os preços das uvas melhoraram. Há espaço para ampliar a produção. Percebemos menos famílias, mas com produção maior. O produtor tem que viabilizar a propriedade. A família que se modernizou, reconverteu vinhedos, organizou a propriedade, colocou variedades precoces e tardias, podendo assim utilizar a mão de obra da própria família, sem depender de terceiros, essas estão muito bem, estruturadas e bem financeiramente. A produção está aumentando. Vamos considerar que 50% do setor é suco. Se crescer 15% a comercialização do suco, não precisamos crescer 15% na produção, precisamos só de 7,5%. Então tem espaço para o setor continuar crescendo e temos matéria-prima para isso. E ainda temos que descobrir nosso foco. Devido à dificuldade de comercialização, o setor está trabalhando em todos os seguimentos, vinho fino, vinho de mesa, espumante, suco, 10 itens. Temos que descobrir o nosso foco. Qual nossa vocação? Espumante e suco de uva. Vamos focar. Vamos abandonar alguns itens que não são tão competitivos.

 

Talvez essa seja a primeira vez que um presidente do Ibravin diz algo assim...

Mas faço isso aqui na cooperativa. Não adianta dar soco em ponta de faca. Não quer dizer que tem que abandonar o vinho fino, mas precisa trabalhar com foco, com direcionamento.

E como vê a questão das microvinícolas e o vinho artesanal?

A venda do produto colonial não pode ser em mercado, tem que ser direta ao consumidor ou em feiras do setor. Tem que ser através do talão de produtor. O volume é de 10 ou 20 mil litros, é pouco. Um produtor médio hoje produz 200 mil quilos de uva. É uma nova alternativa de renda para manter esse agricultor na atividade.

Seria uma alternativa para enólogos que querem produzir em pequena escala com uvas de terceiros?

Não, eles têm que ter produção de uva própria. E tem que ser em um ambiente licenciado, pois é um alimento. Vejo o vinho artesanal mais como uma alternativa de renda para o agricultor.

Como o produto brasileiro vai ganhar mais espaço nas taças dos brasileiros?

Precisamos divulgar. Se há uma grande safra, o consumidor precisa saber. Não adianta somente nós do setor sabermos. O suco é caro se comparado com outras frutas. Mas por trás disso há pesquisas de institutos credenciados dizendo que ele é benéfico à saúde. O consumidor precisa saber disso. Essa informação tem que chegar no consumidor. Está para sair uma pesquisa sobre os benefícios dos vinhos tintos de Merlot, por exemplo. É preciso que nos vendamos mais, o consumidor precisa saber mais, entender mais o produto.

E a questão da unificação do cadastro vitivinícola?

É uma prioridade, está no nosso foco fazer um cadastro nacional, pois hoje o foco é no Rio Grande do Sul. Em 2016 houve uma quebra de safra aqui, criou-se uma insegurança no fornecimento, as grandes redes foram comprar fora e depois acabou sobrando produto nosso. Pois houve quebra aqui, mas ela pode ser atendida por outras regiões. Tem uma produção grande no Nordeste, mas ninguém sabe quantificar esse volume. Em Santa Catarina tem uma produção importante. São Paulo também. E não temos esses dados. Então é uma cobrança muito forte nossa com o Ministério da Agricultura para tornar esse cadastro nacional. Não é para fiscalizar, querer gerenciar outras regiões, mas para ter esse conhecimento mais amplo. Falta muita informação para ter uma atuação mais nacional. O ministério diz que tem que ter um software para todas as secretarias dos estados, que falta pouco para isso, mas já faz dois anos que eles dizem isso. Quanto mais outras regiões desenvolverem a cultura do vinho, mais aumenta o consumo. No fim, todos se beneficiam.

Arnaldo Grizzo eChristian Burgos

Publicado em 29 de Janeiro de 2019 às 15:00


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Artigo publicado nesta revista