Revista ADEGA

Jóia escondida

Ilha de Pantelleria, a pérola negra do Mediterrâneo

Pantelleira tem bons hotéis, bons vinhos e uma uva que foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade!

Eduardo Milan em 11 de Janeiro de 2019 às 20:00

Entre o sul da Sicília e o nordeste da Tunísia está a pequena ilha vulcânica de Pantelleria, conhecida como a “pérola negra do Mediterrâneo” justamente por ser composta quase que totalmente de escuras pedras vulcânicas. Ao longo da história, a ilha foi dominada por diversos povos. Seu nome, todavia, provém da expressão árabe “Bent El-Rhia”, cujo significado é “a filha dos ventos”, devido ao vento constante que refresca as temperaturas, especialmente durante o verão.

Até a década de 1980, Pantelleria era um destino quase que exclusivo para italianos, quando foi descoberta pelo jet set da moda. Giorgio Armani é o frequentador mais famoso da ilha, visitada também por nomes como Sting e Madonna. Fotógrafos e designers abastados compraram e transformaram antigas habitações mouras em vilas com piscinas de borda infinita. Atualmente, há uma série de hotéis e resorts de luxo, prontos para receber turistas que buscam um destino exclusivo. Mas, mesmo sem se hospedar na ilha, é possível conhecê-la e aproveitar alguns de seus encantos. Há, por exemplo, um voo que sai diariamente de Trapani pela manhã, que leva apenas 40 minutos; a volta é no final do dia.

A origem vulcânica de Pantelleria pode ser constatada em todos os detalhes, desde as “dammusi” – casas típicas de paredes espessas construídas com pedras de lava vulcânica e tetos arredondados de gesso branco, que servem para coletar as águas das chuvas – até os campos férteis, riquíssimos em substratos e as nascentes de águas termais, que fluem por toda parte. Na verdade, a paisagem da ilha é bastante diversificada: a costa é de um mar de águas cristalinas, formações de riachos e cavernas, encostas íngremes e recortadas, criadas pelo arrefecimento de fluxos de lava que entraram em contato com a água salgada (e por isso vale a pena um tour de barco em volta da ilha); o interior é verde, rico de uma variedade de vegetais, dentre eles, árvores de frutas cítricas, oliveiras, alcaparreiras e videiras de uva Zibbibo (é possível dar a volta de carro ao redor de Pantelleria em cerca de uma hora). Zibbibo, aliás, é o nome pelo qual a Moscato de Alexandria é chamada na ilha.


Exemplo de “dammusi” – casas típicas, de paredes espessas construídas com pedras de lava vulcânica

Vinhos e alcaparras

De fato, embora se encontre vinhos secos feitos a partir da Zibbibo, a ilha é conhecida por seus vinhos doces: Moscato di Pantelleria DOC e Passito di Pantelleria DOC. Ambas as Denominazione di Origene Controllata – DOC datam de 1971. Os Moscatos devem apresentar teor alcoólico mínimo de 8% e açúcar residual de 40g/l. Já os Passitos – cujas uvas passam por processo de secagem sob o sol e o vento de 10 a 12 dias, tornando-se passas, com aromas e açúcar mais concentrados – devem ter, pelo menos, 14% de álcool e 110g/l de açúcar residual. A tendência para os Passitos, na verdade, é terem a fase de secagem das uvas ampliada para até 30 dias, chegando-se a vinhos com pelo menos 140g/l de açúcar residual. São vinhos com grande potencial de envelhecimento.

O nome Pantelleria vem da expressão árabe “Bent El-Rhia”, cujo significado é “a filha dos ventos”

Pantelleria também é conhecida internacionalmente por suas alcaparras e por seus tomates. Nesse sentido, é comum encontrar plantações junto aos vinhedos, tudo sempre protegido por alambrados de cerca de 80 centímetros de altura, já que os coelhos tornaram-se uma espécie de praga na ilha. É costume local secar os tomates e também as alcaparras, que são conservadas em sal. O ideal é visitar o lugar entre junho e setembro, sendo que nesse último mês, muito provavelmente será possível provar uvas Zibbibo frescas todos os dias.

Patrimônio

Em Pantelleria, as vinhas estão espalhadas entre vários pequenos vilarejos. Além disso, são conduzidas e podadas em um sistema chamado “alberello”. São vinhas baixas, mais assemelhadas a arbustos, com galhos que crescem horizontalmente por aproximadamente um metro e produzem de um a dois cachos de uvas por esporão. São plantadas em cavidades de cerca de 30 centímetros de profundidade e com distância de, mais ou menos, dois metros entre cada vinha. Todo esse sistema serve para proteger folhas, brotos e frutos do vento e também para captar orvalho e água das chuvas para suas raízes.

Por conta de todas essas particularidades, as uvas Zibbibo que caracterizam a ilha recentemente foram declaradas pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade. É a única prática agrícola da lista e a eleição para sua inclusão foi unânime, em reconhecimento à tradição das famílias que há gerações vêm cultivando vinhas em condições extremas – tanto de clima, quanto de saúde, já que o plantio, poda e colheita são impactantes para as colunas dos viticultores –, procurando manter a cultura local.


Um dos locais mais procurados da ilha é o Specchio di Venere

Atrações

Com pouco mais de 84 quilômetros quadrados (só para efeito de comparação, Ilhabela, no litoral de São Paulo, tem quase 350 km2), percorrer Pantelleria é fácil. Apesar do tamanho diminuto, há várias opções de estadia em hotéis de três a quatro estrelas, como o Mursia & Cossyra, o Suvaki ou o Resort Acropoli, por exemplo. Todos com uma arquitetura de estilo rústico mourisco. Se preferir, ainda pode alugar uma dammusi típica só para você e sua família.

Um dos locais mais procurados da ilha é o Specchio di Venere, um lago vulcânico com águas termais sulfurosas. Segundo a lenda, foi lá que Vênus olhou seu reflexo ao comparar sua beleza com a da rival Psyche. Acredita-se que a lama do local tenha propriedades medicinais. O mesmo se diz das águas do porto de Gadir, protegido por rochas vulcânicas, e também de Nikà. Para quem gosta de sauna, pode se aventurar no “bagno asciutto”, perto da Montagna Grande (cume da ilha, de onde é possível ter uma vista completa de todo o entorno), em uma gruta, chamada Benikulà, de onde emanam vapores quentes de cerca de 38oC. Também para quem tem espírito de aventura (pois o trajeto é complicado), vale a pena conhecer o Laghetto delle Ondine, uma pequena baia cercada com águas cristalinas.

Há diversos balneários e termas para conhecer, além de sítios arqueológicos. Circundar a ilha de barco é certamente uma boa pedida. Há passeios que duram o dia todo e custam cerca de 50 euros, incluindo um almoço com spaghetti e paradas em pontos estratégicos. Há ainda opções de passeios com mergulho.

Mitologia

Pantelleria também é uma ilha cercada de história e lendas. Acredita-se que seja ela a mítica ilha de Ogigia, mencionada por Homero na “Odisseia”, onde Ulisses, encantado pela bela ninfa Calipso, permaneceu por sete anos. E os vinhos de Pantelleria são mencionados ainda na mitologia grega. A deusa Tantit teria seduzido Apollo, aconselhada por Vênus, servindo-lhe uma taça de vinho Moscato da ilha.

VERTICAL DE BEN RYÉ

A nova vinícola da Donnafugata em Pantelleria foi fundada em 2006, onde eles possuem 68 hectares de vinhedo em 12 áreas diferentes, sendo a maioria de Zibbibo. Especificamente para o rótulo Ben Ryé, cuja primeira safra foi a de 1989, são adicionadas 70 quilos de frutas passas para cada 100 litros de mosto de forma contínua, a fim de não suspender a fermentação. O “apassimento” (processo de secagem das uvas) dura quatro semanas e usualmente 1 quilo de uva gera 250 gramas de uvas secas. Depois de fermentado, o vinho estagia em tanques de inox por sete meses e ,depois, em garrafa durante 12 meses. Pronto, costuma ter por volta de 14% de álcool, 200 g/l de açúcar, acidez total de 7,9 g/l e pH de 3,8. O nome Ben Ryé vem de um termo árabe que significa filho dos ventos.

Essa degustação memorável ocorreu em Pantelleria, na nova vinícola da Donnafugata, depois de um dia intenso durante a colheita e a vinificação, quando ADEGA pode presenciar todos os detalhes e o cuidado durante o processo de elaboração deste vinho doce natural que, independentemente da safra, mostra sempre muita intensidade e um grande equilíbrio entre acidez e doçura. Os vinhos foram degustados do mais jovem para o mais velho.

AD 92 pontos
BEN RYÉ 2011
Donnafugata, Sicília, Itália (World Wine – não disponível). Amarelo-dourado de reflexos âmbar. Complexas notas de casca de laranja, cera e mel envolvem os aromas de frutas frescas e secas. Concentrado e intenso, tem acidez vibrante, que traz uma sensação de frescor e equilíbrio ao conjunto. EM

AD 93 pontos
BEN RYÉ 2010
Donnafugata, Sicília, Itália (World Wine – não disponível). Possui notas minerais mais pronunciadas, além de frutas mais frescas acompanhadas de toques de casca de laranja, de frutas secas, mas mostrando acidez mais vibrante, com mais equilíbrio e profundidade. Gostoso de beber e nada enjoativo. EM

AD 94 pontos
BEN RYÉ 2006
Donnafugata, Sicília, Itália (World Wine – não disponível). Aqui se tem uma fruta mais madura, como em 2011, mas com a tensão de acidez do 2010. No final de boca já aparece uma deliciosa nota de amêndoas, seguidas por toques de figos secos, mel e casca de cítricos. É intenso e vibrante como o 2010, porém com mais elegância. EM

AD 91 pontos
BEN RYÉ 2004
Donnafugata, Sicília, Itália (World Wine – não disponível). Aqui já aparecem notas de melado e de marrom glacê, além de toques florais e de casca de laranja. A fruta madura se mostra de modo exuberante, sobrepondo-se um pouco a sua gostosa acidez. EM

AD 93 pontos
BEN RYÉ 2002
Donnafugata, Sicília, Itália (World Wine – não disponível). Mostra aromas vivos de frutas brancas e de caroço em calda. Apesar da fruta doce e em compota, tem acidez vibrante, que traz equilíbrio e sustentação ao conjunto. Tem frutas secas mais discretas, que aparecem com o tempo na taça. No estilo do 2006, porém de um jeito mais sutil, delicado e elegante. EM

AD 92 pontos
BEN RYÉ 1999
Donnafugata, Sicília, Itália (World Wine – não disponível). Aqui as notas de marrom glacê são evidentes, depois aparecem tâmaras. Mais untuoso, cremoso, privilegiando volume de boca. Gostoso de beber, porém com a fruta doce prevalecendo sobre sua acidez refrescante. Num estilo mais cheio que longo. EM


Notícias Pantelleria Mediterrâneo pérola negra do Mediterrâneo Giorgio Armani Zibbibo Moscato Passito Pantelleria DOC

Artigo publicado nesta revista

Revista ADEGA 116 · Junho/2015 · Châteauneuf-du-Pape

Saiba tudo sobre o vinho dos papas + Vertical exclusiva de Château de Beaucastel – de 1970 até hoje


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