Pinot Noir

A Pinot Noir neozelandesa de Felton Road

A neozelandesa Felton Road, de Blair Walter, produz alguns dos Pinot Noir mais celebrados fora da Borgonha


Relembre entrevista com Blair Walter de Felton Road produtora de Pinot Noir fora da Borgonha.

Há regiões vinícolas cujos vinhos não são fáceis de serem encontrados por aqui. Uma delas é a Nova Zelândia. Um país formado por duas ilhas, que juntas somam pouco mais de 270 mil km2, no meio do oceano Pacífico, ao sudoeste da Austrália. Quando se pensa nesta nação, logo vem à cabeça lugares exóticos, bichos estranhos (como o kiwi, por exemplo), times de rúgbi, e, no vinho, Sauvignon Blanc e a região de Malborough. Isso é tudo o que muitos lembram ao pensar na Nova Zelândia.

"É importante respeitar o Pinot Noir borgonhês e sua qualidade. De maneira alguma estamos tentando copiar, ou seguir os passos deles, pois temos um terroir completamente diferente. Mas a Borgonha, para o enófilo, sempre será o benchmark para saber o que é um grande Pinot Noir"

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No entanto, ao sudeste da ilha sul, há uma área vitivinícola que vem se destacando nos últimos anos: Central Otago. E, em um lugar longe da costa leste e, à oeste, rodeado por montanhas, fica Felton Road, com três vinhedos, somando pouco mais de 32 hectares ao todo. Lá, praticamente no meio do nada, o enólogo Blair Walter produz alguns dos mais aclamados Pinot Noirs fora da Borgonha.
Aliás, é nos padrões de qualidade desta região francesa que ele se molda para fazer os Pinots e os Chardonnays da propriedade, mesmo sabendo que os estilos são diferentes. Walter segue ainda a linha "cool" de seu "chefe", Nigel Greening - um ex-publicitário de sucesso, amante dos vinhos borgonheses, que encontrou na Nova Zelândia um lugar para investir seu tempo e dinheiro - e confessa que só usa blazer em raras ocasiões.
"Descolada", a Felton Road é biodinâmica (recebeu certificado neste ano) e apesar de seguir a corrente borgonhesa, eles sabem que são diferentes. Seria uma Borgonha jovem e - não diríamos rebelde, mas - alternativa. A seguir, você confere esse papo descontraído com Walter, que explica um pouco do "life and wine style" neozelandês.

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Diz-se que o grande segredo da sua vinícola e consequentemente de seus vinhos é o clima local, que é diferente de todo o resto da nova zelândia. Qual a diferença de Central otago para as outras regiões do país?
Estamos na região mais meridional de todas as regiões vinícolas neozelandesas, o que também nos torna a mais meridional de todo o planeta. Estamos exatamente no paralelo 45o sul, o que significa a mesma latitude de Bordeaux no hemisfério norte. Então, alguém poderia pensar que deveríamos plantar Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah. O que não percebem é que 45o no sul é muito mais frio que no norte. Nossa região é mais fria, pois a Nova Zelândia são duas pequenas ilhas no meio do oceano sul, que é um mar muito frio, e as principais massas terrestres são a Patagônia e Antártida. Os ventos vêm de oeste para leste. Eles batem no lado oeste das montanha. O sul da Nova Zelândia é um lugar muito úmido, o segundo mais úmido do mundo, de 7 a 10 metros de chuva por ano. Vivemos a apenas a 80 km desse lugar e temos 315 mm por ano. Então, é um clima muito seco.

Por que o Pinot noir vai tão bem lá?
É muito interessante para o Pinot Noir, pois ele gosta de crescer em climas frios. Quanto mais, melhor. A Borgonha é um lugar complicado. Alguns anos podem ser bons, outros podem ser perigosos. Quando é bom, nada é melhor do que aquilo. Central Otago tem um clima não tão similar àquele, mas é muito frio. O Pinot Noir gosta de ser desafiado pelo clima frio, mas, na maioria dos lugares em que se tenta encontrar esses climas, você começa a sair fora da estação, pois a chuva começa a vir. Na Nova Zelândia, o clima está sempre mudando rapidamente. Um dia se tem chuva. No seguinte, é sempre ensolarado. Não há uma massa de terra muito grande, então os sistemas climáticos passam por nós, sempre mudando. Dizemos que temos quatro estações em um dia. E, como venta muito, as vinhas secam logo depois da chuva, então a pressão por doenças é pequena.

"Estamos na região mais meridional de todas as regiões vinícolas neozelandesas, o que também nos torna a mais meridional de todo o planeta"

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O padrão que você busca para seu Pinot é o padrão borgonhês?
É importante respeitar o Pinot Noir borgonhês e sua qualidade. De maneira alguma estamos tentando copiar, ou seguir os passos deles, pois temos um terroir completamente diferente. Mas a Borgonha, para o enófilo, sempre será o benchmark para saber o que é um grande Pinot Noir. E acho que estamos encontrando. O Pinot Noir neozelandês está evoluindo. Ainda é muito cedo, mas as pessoas estão começando a identificar: "Este é um bom Pinot e ele é, por incrível que pareça, de Central Otago". Não precisamos ter essa competição de quem é o melhor.

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Vinícola recebeu certificação de biodinâmica em 2010

Lá você ainda têm Chardonnay e Riesling. Que estilo de vinhos busca com essas duas variedades?
De novo, certamente você é inspirado pelos grandes borgonheses, pois nosso clima é muito frio, então temos uma acidez muito boa, bem diferente de outros Chardonnay do Novo Mundo, como Austrália ou Califórnia, de climas mais quentes. São ricos, mais redondos, com mais minerais, acidez, mais justos, mais contidos em estilo. Aprendemos que o estilo que tínhamos era mais como o do Chablis.

E o Riesling?
O Riesling, com o clima frio e alta acidez, tem um estilo mais alemão. A similaridade que as pessoas fazem com nosso estilo de Riesling é o Spätlese, do Mosel, com alta acidez e também alto açúcar residual e menos álcool.

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"Na Nova Zelândia, o clima está sempre mudando rapidamente. Um dia se tem chuva. No seguinte, é sempre ensolarado. Não há uma massa de terra muito grande, então os sistemas climáticos passam por nós, sempre mudando. Dizemos que temos quatro estações em um dia"

Possuem alguma outra variedade de uva por lá?
Não, mas outros produtores de Central Otago cultivam Pinot Gris, que é a variedade branca mais popular. Muitos ficaram longe do Chardonnay, pois acharam que era muito complicado. Complicado de vender, pois tem muito no mundo. Mas, se você faz um bom, as pessoas vão querer. Há ainda um pouco de Sauvignon Blanc e Gewürztraminer. Mas temos só Pinot Noir, Riesling e Chardonnay. É o suficiente. O interessante em Central Otago, em comparação com outras regiões de Pinot Noir, é que você não consegue amadurecimento com qualquer outra variedade tinta. Para Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, você precisa ir para o norte, mais quente, para Hawke's Bay, por exemplo. Você até pode fazer vinho disso lá, mas eles não ficarão muito interessantes.

Ninguém arrisca?
Há 1,5 mil hectares de Pinot Noir. Aí, 2 hectares de Syrah, 1 hectare de Merlot. A maioria experimentos. Mas, talvez com as mudanças climáticas torne-se viável. As mudanças de clima na Nova Zelândia não deverão ser dramáticas, com aumentos de temperatura, como em climas continentais. Pois é um massa de terra pequena. O clima muda tanto e não temos visto sinais de aquecimento global ainda.

"O Pinot Noir gosta de ser desafiado pelo clima frio, mas, na maioria dos lugares em que se tenta encontrar esses climas, você começa a sair fora da estação, pois a chuva começa a vir"

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Não?
Os invernos estão mais quentes. Diria que 30, 40, 50 anos atrás, os lagos congelavam. Podia-se esquiar, jogar curling. Hoje é estranho se eles congelarem. Isso é um sinal de que está mais quente. Mas, no verão, não. Em um dia pode estar 38oC e dois dias depois, 10°C.

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Qual seria a principal diferença entre França e Nova Zelândia no estilo dos vinhos?
Os vinhos da Nova Zelândia são percebidos pelas pessoas como mais ricos, com mais frutas em relação aos da Borgonha. Mas muito disso se dá por nossas vinhas serem muito novas. As vinhas mais antigas foram plantadas em 1992.

Você acha que os vinhos da Nova Zelândia são mais acessíveis que os da Borgonha quando jovens?
Sim. Por causa dessa fruta. A Borgonha tem vinhos mais fechados quando jovens, que precisam de tempo e paciência. Nossos taninos são mais macios. É bom ser leve, pois talvez os consumidores comprem outra garrafa ou falem para os amigos. Pois, temos que ir além e encontrar os consumidores. A Borgonha e outras regiões famosas possuem uma grande massa de consumidores e seguidores leais. E, se alguns olham para nós, temos muito orgulho disso.

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"É uma área muito rural. Leva 3 horas de carro para ver um semáforo. Em um raio de mais de 1 km, há apenas 13 mil pessoas"

Qual o papel de Nigel Greening na vinícola? Ele comprou Felton Road em 2000 e quais mudanças promoveu?
Uma das coisas que escolhemos foi uma maneira de fazer a empresa crescer. Tínhamos cerca de 6 mil caixas. Planejamos crescer para 12 mil. Mas ainda é uma propriedade pequena, onde, como enólogo, tenho total controle de tudo o que acontece na vinícola. E a outra coisa é que decidimos ir para o orgânico. Começamos em 2001 e, um ano depois, aprendemos mais sobre biodinâmica. Então, convertemos tudo em 2006. No começo deste ano recebemos a certificação. Nigel é um cara apaixonado por vinho. Nos divertimos com nosso negócio, com nosso vinho. Não nos levamos muito a sério. Uso blazer quando venho para eventos assim, mas são as únicas vezes. No resto, é sempre muito casual.

Ser biodinâmico não é somente cultivar vinhas e fazer vinho de uma certa maneira, é quase que uma filosofia de vida. Por que escolher esse caminho?
Para muitas pessoas, colocar "orgânico" no rótulo é uma vantagem de marketing. Para nós, isso nunca foi a intenção. Só nos certificamos para ter credibilidade: além de falar, fazemos. Para nós, era uma filosofia: ser gentil com a terra, prestativo com nossos trabalhadores, proporcionar um ambiente onde não se usa química, mas, mais importante, para as vinhas crescerem sem influências externas. Portanto, pode-se ter vinhos que são a real expressão do lugar de onde vieram. A biodinâmica é interessante, pois ensina a pensar em todo o ecossistema e encoraja a incorporar animais. Temos nossos vinhedos e algumas estepes ao lado, onde podemos ter bodes, gado, galinhas, hortas. Isso é interessante, é como voltar ao que era o sistema de fazendas, se auto-sustentando.

"Para nós, [ser biodinâmico] era uma filosofia: ser gentil com a terra, prestativo com nossos trabalhadores, proporcionar um ambiente onde não se usa química, mas, mais importante, para as vinhas crescerem sem influências externas. Portanto, pode-se ter vinhos que são a real expressão do lugar de onde vieram"

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A nova zelândia é conhecida mundialmente pelo Sauvignon Blanc, especialmente de Malborough. Você acredita que o Pinot noir pode alcançar esse tipo de reconhecimento?
Não. Sempre seremos diferentes, pois estamos falando de vinhos de faixas de preço diferentes. Em Central Otago, não é possível produzir Pinot Noir com o mesmo preço do Sauvignon Blanc de Malborough, pois a terra não é tão grande. Não podemos ser competitivos em preço. Mas acho que, em termos de reputação... Li artigos de Jancis Robinson dizendo que os dois estilos de vinho famosos na Nova Zelândia são o Sauvignon Blanc de Malborough e o Pinot Noir de Central Otago. Sempre somos mencionados na mesma posição agora.

O site de vocês é divertido. lá diz que você é enólogo e faz montain bike...
É uma área muito rural. Leva 3 horas de carro para ver um semáforo. Em um raio de mais de 1 km, há apenas 13 mil pessoas. Coisas como pescar, acampar, escalar, mountain bike, são naturais. Gostamos da ideia de que o negócio deve ser divertido. Devemos gostar uns dos outros e não nos levar tão a sério. A vida é muito preciosa e, na sua lápide, não seria legal ter "ele fez várias horas extra". É preciso viver. Tentamos ter essa cultura na vinícola.

Vocês só usam tampas de rosca (screwcap)?
Sim. Mudamos para screwcap na safra de 2001. Até 2005, ainda fazíamos uma pequena quantidade em cortiça para mercados exportadores mais conservadores. O Brasil era um deles. Era um desafio enorme introduzir um vinho como o nosso, com preço razoável, e colocar screwcap. Mas em 2005 tivemos experiências suficientes com screwcap para perceber que era uma boa maneira de selar a garrafa. Não havia nada errado tecnicamente com ela, somente a percepção do consumidor. Vinhos de estilos mais delicados, como tentamos produzir, são muito mais ligados à relatividade da rolha, devido à oxidação, e achamos que o screwcap eliminava todas essas preocupações. Na hora de envelhecer, vai ser confiável também, porém, mais lento. Seria como envelhecer em uma magnum ou em uma adega muito fria.

Vinhos provados

Felton Road Pinot Noir 2008

Felton Road, Central Otago, Nova Zelândia
AD 90 pts - Ótimo

Tinto

Tinto produzido segundo os preceitos orgânicos pela Felton Road, reconhecida pela capacidade de produzir ótimos Pinot Noir. Este vinho estagia 11 meses em barris de carvalho francês e possui cor rubi brilhante de reflexos púrpura, com aromas de frutas vermelhas maduras, notas florais e toques de terra úmida. Na boca, é redondo, frutado, tem ótima acidez e taninos macios. Elegante e de média persistência, sempre pede mais um gole. Bom exemplar dessa cepa, fazendo jus à fama da Nova Zelândia de produzir bons vinhos com Pinot Noir. Ótima companhia para carnes brancas ensopadas. Álcool 14%. EM

Felton Road Pinot Noir Block 5 2008

Felton Road, Central Otago, Nova Zelândia
AD 92 pts - Excelente

Tinto

Tinto top da vinícola, biodinâmico, produzido a partir uvas Pinot Noir provenientes exclusivamente de um único vinhedo, o Block 5, com posterior estágio em barris de carvalho francês (38% novos) por 18 meses. Possui cor vermelha rubi brilhante e translúcida. Tem aromas de frutas vermelhas frescas e maduras e notas complexas de especiarias, além de um sutil toque fl oral e de terra úmida. Na boca, é um vinho frutado, equilibrado, de ótima acidez e extremamente elegante. É longo e de boa persistência, melhorando e ganhando complexidade a cada gole, o que denota sua juventude, mas, com certeza, demonstra todo seu potencial. Vinho de exceção e de meditação. EM

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Arnaldo Grizzo

Publicado em 9 de Março de 2019 às 13:00


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Artigo publicado nesta revista