Revista ADEGA

Escola do vinho

10 variedades de uva subestimadas

10 castas que podem produzir ótimos vinhos, mas que não costumam ser prestigiadas pelos enófilos

Arnaldo Grizzo em 18 de Agosto de 2018 às 12:00

Ninguém duvida da capacidade da Cabernet Sauvignon de produzir grandes vinhos. Nem mesmo da Pinot Noir. Tampouco da Syrah ou da Tempranillo. Mundo afora há variedades que são consagradas e estão sempre na mente dos enófilos. Elas acabam servindo de portos seguros para muitos quando estão diante de várias opções – o que atualmente é cada vez mais comum. Quando se depara com a diversidade, muitos preferem optar por algo familiar.

Não à toa, as variedades mais vendidas do planeta são quase sempre as mesmas. No entanto, há muito para a ser descoberto e, em alguns casos, a ser levado em consideração. À sombra de muitas das variedades clássicas, muitas vezes estão outras subestimadas. Na Borgonha, por exemplo, palco da Pinot Noir, a Gamay foi relegada (e até mesmo banida durante a Idade Média), mas, ultimamente, vem mostrando cada vez mais um potencial até então desconhecido do público.

E há casos semelhantes em diversas regiões vitivinícolas do globo. Na maioria das vezes, algumas cepas se destacam e se tornam famosas, ofuscando outras que não são ruins. Elas acabam relegadas a um segundo plano e, ocasionalmente, sofrem algum desprezo e até preconceito. ADEGA, portanto, selecionou 10 variedades que estão fora do radar, mas que merecem ser valorizadas.

Aglianico 

Aglianico

Acredita-se que a Aglianico tenha sido uma das principais uvas da Itália antiga. Ela teria sido trazida pelos gregos e seu nome seria uma corruptela da expressão “Ellenico” (no entanto, pesquisas apontam que não existe nenhuma variedade similar na Grécia). Ela se desenvolveu na região da Campania, mas também em outras regiões ao sul da Itália, como Basilicata (onde se produz o lendário Aglianico del Vulture), Puglia e Calábria. A Aglianico, por exemplo, é a uva da DOCG Radici Taurasi, na Campania, onde se destaca o produtor Mastroberardino. Ela tem muita capacidade de envelhecimento, além de apresentar austeridade e refinamento para rivalizar com os grandes tintos do mundo. Outros produtores que elaboram varietais de Aglianico são Terredora e Villa Matilde, por exemplo.

Clique e confira vinhos feitos com Aglianico

Touriga Franca 

Touriga Franca

Segundo a Wines of Portugal, a Touriga Franca (ou Francesa, como também é conhecida) é a variedade mais cultivada do Douro, Portugal. Ela é uma das cepas historicamente usadas nos blends de Vinho do Porto e, mais recentemente, também nos Douro DOC. Ela é costumeiramente tida como tendo uma boa cor e taninos, mas “sem a qualidade da Touriga Nacional e da Tinta Roriz”. Ela tende a mostrar aromas delicados, porém intensos, de frutas negras e notas florais, de grande corpo. Por isso, além de seus bons rendimentos e de ser “confiável”, é uma das mais usadas nos blends. No entanto, cada vez mais os produtores vêm realizando experimentos de sucesso com varietais, tanto no Douro quanto no Alentejo, e algumas regiões como Tejo, Beiras e Lisboa, onde a Casa Santos Lima é uma das pioneiras.

Clique e confira vinhos feitos com Touriga Franca

 

 

 

 

 

 

 

Graciano 

Graciano

Esta é outra cepa coadjuvante que tende a ser bastante subestimada. A Graciano é comumente usada em blends em Rioja, Espanha, fazendo par com a mundialmente famosa Tempranillo. Acredita-se que, antes do ataque da filoxera, em meados do século XIX, a cepa tinha muito mais representatividade na região. Agora, porém, ela vai retomando, aos poucos, pois é uma variedade bastante susceptível a doenças. Ela dá vinhos com bastante acidez e taninos, porém destaca-se nos aromas, sempre muito intensos. Alguns produtores evitam varietais por acreditar que ela se oxida facilmente, mas outros apostam em seu perfil de estrutura e aromas e produzem excelentes exemplares, como os da Dinastia Vivanco e Bodegas Valdemar, por exemplo.

Clique e confira vinhos feitos com Graciano

 

Negroamaro 

Negroamaro

O nome realmente não é muito atrativo. Negroamaro significa “amargor negro”. Esta casta típica da Puglia, na Itália, é ofuscada pela Primitivo, uma das variedades mais na moda atualmente. Até pouco tempo atrás, Negroamaro costumava ser mais utilizada para dar cor aos vinhos e complementar blends com outras cepas, como Primitivo e Malvasia Nera, por exemplo. No entanto, cada vez mais os produtores, especialmente da península de Salento (Cantine Due Palme, Cosimo Taurino, San Marzano, por exemplo), vêm mostrando o potencial da uva, criando vinhos com maior textura de taninos e, geralmente, acidez mais pronunciada, bastante gastronômicos.

Clique e confira vinhos feitos com Negroamaro 

Aligoté 

Aligoté

Quando se pensa na Borgonha, as primeiras castas que surgem na mente são a Pinot Noir e a Chardonnay. No entanto, um olhar mais atento vai descobrir que a região francesa não se resume somente a isso. Apesar de ter importância muito inferior à Chardonnay, a branca Aligoté (que tende a não estar plantada nos principais locais das denominações de origem) vem lentamente sendo revitalizada e valorizada por alguns produtores de renome. Um deles, por exemplo, é o lendário Aubert de Villaine, dono do Domaine de la Romanée-Conti, que está utilizando a cepa em seu projeto pessoal. Quando bem cultivada e vinificada, a Aligoté resulta em vinhos de excelente estrutura e de aspectos minerais, às vezes um pouco discretos nos aromas, mas com grande capacidade de envelhecimento.

Clique e confira vinhos feitos com Aligoté

Avesso 

Avesso

A Avesso é uma das diversas castas de cultivo permitido na região de Vinho Verde, em Portugal. Ela é costumeiramente usada como parte do blend especialmente no Minho, juntamente com as mais famosas Arinto, Loureiro e Trajadura. Diz-se que os vinhos elaborados com esta uva tendem a ser mais cheios e aromáticos, assim como apresentar teor alcoólico mais alto e relativamente baixo teor de acidez (se comparado com as outras brancas locais). Aliás, acredita-se que essa característica valeu o nome de Avesso, pois ela apresenta o oposto das características comuns das cepas da região. Cada vez mais produtores, como a Quinta de Covela, por exemplo, vêm experimentando com varietais que comprovam o potencial da casta.

 Clique e confira vinhos feitos com Avesso

Sylvaner 

Sylvaner

Mais uma variedade coadjuvante nas regiões onde costuma ser cultivada, como a Alsácia, na França, e também em diversos locais da Alemanha. A Sylvaner (ou Silvaner) não possui a fama da Riesling e tampouco da Gewürztraminer, as principais castas quando falamos de vinhos alsacianos e alemães. Muito de sua “má fama” deveu-se à onda dos Liebfraumilch e chegou a ser considerada uma variedade de vinhos “neutros”. Mas ela vem, aos poucos, retornando ao cenário mundial com vinhos de boa acidez e aromas e sabores que podem ir do cítrico ao amendoado, como os do produtor Horst Sauer, da Alemanha, ou Hugel, da Alsácia.

 Clique e confira vinhos feitos com Sylvaner

 

 

Trousseau 

Trousseau

O Jura é uma região ainda pouco conhecida da França, mas vem ganhando notoriedade nos últimos anos. Lá, os principais vinhos são feitos com duas cepas tintas, a Poulsard (tida como delicada e fina) e a Trousseau (dita como firme e concentrada). Esta última tende a ser menos valorizada na região. Ela também é conhecida como Bastardo, em Portugal, onde costuma também ser subestimada. Todavia, no Jura, ela tem gerado vinhos deliciosos, frutados e frescos – alguns dos principais exemplares são do lendário produtor Pierre Overnoy, além de outros expoentes como Domaine Ganevat, Domaine Tissot, Rollet e Domaine du Pelican, por exemplo. A Trousseau também tem apresentado bons resultados nos Estados Unidos e na Patagônia argentina (Bodega Aniello e Miras, por exemplo).

Clique e confira vinhos feitos com Trousseau 

 

 

Catarratto 

Catarratto

Apesar de ser uma das uvas mais cultivadas da ilha da Sicília, e amplamente plantada em toda a Itália, a Catarratto sempre esteve em segundo plano em termos de importância. Em território siciliano, ela costuma ser produzida principalmente para compor os vinhos de Marsala e, muitas vezes, também para ser destilada. Tida como “neutra”, ela também tende a compor blends com diversas outras cepas como Inzolia, Grillo e Chardonnay, por exemplo. No entanto, quando bem vinificada pode produzir vinhos de grande qualidade, geralmente com bom corpo, com aromas delicados de flores, toques cítricos e minerais, além de sabores de ervas acompanhados de boa acidez.

Clique e confira vinhos feitos com Catarratto

Macabeo 

Macabeo

Também conhecida como Viura, esta cepa branca é tradicional de Rioja, na Espanha. De alto rendimento, ela costuma ser muito usada na produção de Cava. Ela também pode ser encontrada no Languedoc-Roussillon. Os brancos do Rioja tendem a ter grande percentual de Macabeo, pois é uma casta que resiste à oxidação. Dessa forma, ela está por trás de alguns dos grandes brancos da Espanha, principalmente riojanos, e também do mundo, com exemplares icônicos de produtores como Viña Tondonia, Castillo Ygay, entre outros.

Clique e confira vinhos feitos com Macabeo


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