Revista ADEGA

Curiosidades

Conheça a vida transgressora de um grupo da Idade Média baseada em música, mulheres e vinhos

Os goliardos satirizavam a igreja católica ao cantar os prazeres da vida

Arnaldo Grizzo em 25 de Outubro de 2018 às 15:00

Martinho Lutero teria dito: “Quem não ama o vinho, mulheres e música, permanece um tolo por toda a vida”. Ao que parece, os fundamentos para esse pensamento teriam surgido antes mesmo da Reforma Protestante, ainda na Idade Média, quando clérigos pobres e andarilhos, chamados goliardos, viviam perambulando pelas vilas debochando dos preceitos católicos e cantando as maravilhas do vinho e dos prazeres da vida.

Em um período em que a igreja dominava mentes e corações, jovens monges que saíam dos mosteiros acabavam desamparados pela igreja, errantes e vagabundos. O goliardos tinham uma vocação transgressora e frequentavam tavernas e outros lugares “menos sagrados” onde podiam declamar seus poemas satíricos, cínicos e eróticos, em que denunciavam a podridão da igreja ainda no século XII.

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O goliardos tinham uma vocação transgressora e frequentavam tavernas e outros lugares “menos sagrados” onde podiam declamar seus poemas satíricos, cínicos e eróticos

Muitos desses poemas em canções sobreviveram à passagem dos séculos e censura da igreja, chegando aos nossos dias. Alguns dos mais famosos, porém, só foram descobertos no começo dos anos 1800 quando o bibliotecário Johann Christoph von Aretin encontrou manuscritos perdidos entre obras clássicas de um mosteiro beneditino na Bavária, região sul da Alemanha. Na época, o Sacro Império Romano-Germânico estava desapropriando territórios eclesiásticos.

Aretin fi­cou impressionado ao encontrar esse tipo de material – nomeado de Codex Buranus – na abadia de Benediktbeuern. Ele classi­ficou o achado como “uma coleção de sátira poética e prosaica, dirigida principalmente contra a sede papal”, e passou a estudá-lo.

O Codex consistia de 254 poemas e textos dramáticos irreverentes, escritos em latim medieval, mas também em alemão, com traços de francês e provençal, ou então uma mistura de latim, alemão e francês. Ao todo, conta com 55 canções que falam de moral e de zombaria, 131 de amor, 40 de bebida e jogos, além de duas peças de teatro.

Pouco se sabe sobre os autores dos textos já que a maioria não estava assinada. Alguns, contudo, puderam ser vinculados a Hugo Primas de Orleáns, outros a Walter de Châtillon e outros ainda a Peter de Blois. Muitos, porém, foram creditados a um autor anônimo denominado Archipoeta, que teria escrito sua “Con­ssão” em Carmina Burana. Ele teria sido o principal nome da “literatura goliarda”.

SORTE E LUXÚRIA

Em 1936, a Carmina Burana, como ­ficou conhecido esse manuscrito, acabou servindo de inspiração para o compositor alemão Carl Orff, fi­lho de bávaros, criar uma das peças mais populares da música erudita, a cantata Carmina Burana, em que musicou 24 poemas do Codex original.

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A roda da fortuna é uma das figuras mais presentes no Codex Buranus. Carl Orff (ao lado) usou alguns dos trechos dos poemas e criou uma obra inconfundível (Carmina Burana) que começa e termina com uma ode à deusa da fortuna

Orff usou alguns dos trechos mais famosos dos poemas e criou uma obra inconfundível que começa e termina com uma ode à deusa da fortuna, Fortuna Imperatrix Mundi (“sorte, imperatriz do mundo”), um dos trechos mais conhecidos e repetidos da história da música, devido não somente à sua eloquência, mas à mensagem que transmite, basta ver seus versos iniciais. “O Fortuna velut luna statu variabilis, semper crescis aut decrescis; vita detestabilis nunc obdurat et tunc curat ludo mentis aciem, egestatem, potestatem dissolvit ut glaciem”. Em tradução livre: “O Fortuna, como a lua, sempre mutável, sempre crescente ou minguante; vida odiosa, agora oprime, em seguida suaviza, jogando com a mentira, pobreza e poder que ela faz derreter como gelo”.

A roda da fortuna aliás é uma das ­guras mais presentes na peça. Nos poemas dos goliardos, é ela, a sorte, quem determina o destino, não Deus. “Fortune rota volvitur: descendo minoratus; alter in altum tollitur; nimis exaltatus rex sedet in vertice caveat ruinam! Nam sub axe legimus Hecubam reginam” (A roda da fortuna gira; eu desço humilhado; enquanto outro é exaltado; muito alto senta-se o rei no trono, deixe-o temer ruína! Sob o eixo da roda lemos rainha Hécuba – rainha de Troia que viu seus ­filhos e esposo serem mortos, tornou-se escrava e acabou transformada em cadela).

Além da sorte, os textos de Carmina Burana evocam também o erotismo. Amantes, virgens, moças da vida etc. são retratadas nos versos sarcásticos. O amor luxurioso é evocado, por exemplo, na passagem “Tempus es iocundum”, em que os jovens dizem estar a ponto de morrer depois de terem se apaixonado pela primeira vez. A atmosfera é toda sensual e pouco romântica, repleta de materialismo. Não há ternura de sentimentos. São representações da paixão efêmera.

TODOS BEBEM

No entanto, as passagens mais divertidas tanto dos poemas quanto da música de Orff são as canções de taberna. No trecho “In taberna quando sumus” (quando estamos na taberna), os goliardos descrevem o que se passa quando estão nesse lugar de bebida, jogos e mulheres. “Eles jogam a sorte em nome de Baco [...] e bebem em nome do papa e do rei”, avisam. Em uma das passagens mais cômicas, enumeram todos os bebedores: a prostituta, o soldado, o sacerdote, o negro, o branco, o preguiçoso, o andarilho, o bobo, o sábio, o jovem, o velho etc. “Bebem cem, bebem mil”, contam.

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Em outro trecho do poema, chamado de “sequência em louvor ao vinho”, eles literalmente pedem a bênção do “vinho bom e ameno”, evocando-o com a “felicidade do mundo” e ­nalizando dizendo que estão o servindo (no sentido de servidão). Mais adiante, em um canção que lembra os cânticos natalinos, chamada “in dulci jubilo”, supõe-se que os monges já bebiam um amarelo vinho do Reno, assim como Jerez e vinho tinto.

No entanto, um dos trechos mais curiosos do Codex é um poema que conta uma disputa entre a água e o vinho, e o porquê de não misturá-los – desde a Antiguidade a mistura de vinho com água é mal vista e, por alguns povos, considerada crime. Nele, água e vinho são misturados e um começa a pedir que o outro saia do copo, acusando-se mutuamente.

A água diz: “Tu ensina a língua do homem a gaguejar; quem se digna a beijar os teus lábios vai cambalear na sarjeta; você incita os homens a falar sem discernimento”. O vinho rebate: “Graças a mim, falam os mudos, surdos ouvem, cegos veem, os sentidos brilham e o homem coxo encontra seus pés. Através de mim todos voltam para a juventude”. A água replica: “Por teu ofício, tornam-se os homens injustos, maus, ruins, piores, perigosos!” O vinho, porém, encerra a discussão: “Muitos homens que engoliram tua poção infectada foram seguidos da morte no dia seguinte”, dando a entender que as pessoas sabiam que a água, muitas vezes, estava contaminada. Portanto, aquele que misturar água e vinho “deve ser amaldiçoado e nunca poderá reclamar uma parte do reino de Cristo”.


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