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Vinhos borgonheses da década de 1960

Comprovamos a longevidade dos vinhos da Borgonha em uma degustação


Por não serem vinhos a que a maioria de nós tem acesso todos os dias, afinal de contas estamos falando de borgonheses velhos e três deles com mais de 40 anos, alguns desafios se colocam. Por exemplo, primeiramente como abri-los, decantá-los ou não - aqui com intuito de separar os sedimentos que se depositam no fundo da garrafa -, qual a ordem de serviço, e assim por diante. Essas são preocupações relevantes, pois, via de regra, vinhos antigos são mais delicados e sensíveis e, dependendo de como são abertos ou colocados em contato com o ar, podem "morrer".

Por outro lado, o desafio de quem os prova também é grande, pois eles fogem dos parâmetros de fruta, concentração e intensidade que são comuns nos vinhos jovens usualmente consumidos por todos nós. De fato, vinhos antigos perdem nesses quesitos, mas oferecem outras qualidades como delicadeza, sutileza e complexidade aromática.

A premissa de que vinhos antigos morrem em contato com o ar caiu por terra

Nesse contexto desafiador, ADEGA decidiu convidar um grupo especial de amigos - os empresários Christiane Badra, Clóvis Correa da Costa, Flávia Galli, Gabriel Zipman, Junia Marcello, Marco Banfi Passarelli e Marcos Marcello - para degustar, opinar e, acima de tudo, comprovar a capacidade de envelhecimento dos vinhos da tão fascinante e intrigante Borgonha, berço da Pinot Noir e da Chardonnay. Assim, essas preciosidades foram servidas na seguinte ordem: Pierre Laforest Chablis Les Blandores 1994, Cruse Nuits-Saint-Georges 1966, Chanut Frères Morey-Saint-Denis 1961 e Domaine Drouhin -Laroze Bonnes Mares Grand Cru 1964.

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Já no início, foi por água abaixo a premissa de que vinhos velhos tendem a declinar em contato com o ar, acontecendo totalmente o contrário. Todos, sem exceção, ficaram muito melhores depois que foram servidos e permaneceram mais tempo nas taças. Fato comprovado por Marco Banfi Passarelli e Christiane Badra, que ficaram surpresos com a evolução dos vinhos, principalmente o Morey-Saint-Denis e o Bonnes Mares. Opinião seguida por Gabriel Zipman, ressaltando a evolução positiva do Nuits-Saint-Georges que, para ele, ao primeiro momento, parecia estar prejudicado e depois mostrou toda sua complexidade aromática.

Flávia Galli, por sua vez, ressaltou a complexidade tanto de nariz quanto de boca do Chablis, demostrando sua surpresa com a vivacidade e intensidade de um branco com quase 20 anos. Clovis Correa também ficou pasmo com as qualidades do branco, mas ressaltou o equilíbrio e a delicadeza do Morey-Saint-Denis.

Unânime foi a opinião dos presentes em relação ao Bonnes Mares, que surpreendeu pela vivacidade e jovialidade apresentada, sendo o favorito da noite, seguido de perto pelo Morey-Saint-Denis. Fascinante, diferente e apaixonante nas palavras de Christiane e "a cara da Borgonha" para Passarelli.

Em suma, entre suspiros de deleite, fascinação e, acima de tudo, de surpresa, todos os participantes puderam comprovar a capacidade de envelhecimento desses borgonheses tão exclusivos e perceber a maravilha que é degustar vinhos antigos, principalmente por oferecerem sensações distintas das que estamos acostumados, tanto em aspectos aromáticos quanto gustativos.

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AD 91 pontos
PIERRE LAFOREST CHABLIS LES BLANDORES 1994
Pierre Laforest, Borgonha, França. Negociante da Borgonha sediado em Vougeot. As primeiras menções das instalações onde está situada a vinícola datam de 1631. Apresenta cor amarelo-dourado translúcido e brilhante e aromas cativantes de flores murchas permeados por notas minerais, de frutos secos e de mel. Há um traço oxidativo que aporta complexidade ao vinho. Em boca, é frutado, estruturado, tem ótima acidez, boa persistência, ainda vivo, muito equilibrado e gostoso de beber, com um longo final lembrando Jerez. Diferente, por isso surpreendente. EM

AD 92 pontos
CRUSE NUITS-SAINT-GEORGES 1966
Cruse & Fils, Borgonha, França. A Côte de Nuits está situada na parte norte da Côte d'Or e é onde os melhores Pinot da Borgonha e do mundo são produzidos. Em Nuits-Saint-Georges geralmente são produzidos os vinhos mais vibrantes e intensos de Côte de Nuits, exibindo notas florais e de cerejas negras. A safra 1966 foi muito boa em condições gerais, talvez uma das melhores da década. Apresenta cor vermelho-acastanhado de reflexos âmbar. O nariz se mostrou acanhado e discreto no início, mas depois foi evoluindo e mostrando aromas cativantes e muito complexos, predominantemente terciários e de frutos secos, além de toques terrosos, de cogumelos e de flores murchas. No palato, seguiu a mesma tendência do olfato, melhorando de forma surpreendente com o tempo de copo. Austero, tem boa acidez, taninos maduros, mas ainda presentes e final longo e profundo. Sutil, delicado e elegante. EM

AD 93 pontos
CHANUT FRÈRES MOREY-SAINT-DENIS 1961
Chanut Frères, Borgonha, França. Geralmente os vinhos de Morey são ofuscados pelos seus famosos vizinhos Gevrey e Chambolle, porém costumam apresentar a mesma classe dos outros, combinando elegância e estrutura. A safra 1961 é considerada a melhor da década de 60. Apresenta cor vermelho-rubi acastanhado e aromas de frutas vermelhas passadas e em compota, bem como notas florais, terrosas e de cogumelos. Está muito vivo e exuberante também no palato, confirmando as frutas encontradas no nariz. Tem ótima acidez, taninos finos e final delicado e persistente. Exala sutileza e elegância em conjunto com uma profundidade e intensidade ímpares. Um idoso em plena forma. EM

AD 95 pontos
DOMAINE DROUHIN-LAROZE BONNES MARES GRAND CRU 1964
Domaine Drouhin-Laroze, Borgonha, França. Bonnes Mares é um pequeno vinhedo com status de Grand Cru, localizado entre Chambolle-Musigny e Morey-Saint-Denis. Exclusivos acima de tudo, os vinhos dessa denominação são estruturados, combinando taninos marcantes com sutileza e elegância. Apresenta cor vermelho-rubi de reflexos acastanhados. Delicado, elegante, exótico, classudo e equilibrado, exibe complexas notas minerais, terrosas, de carne crua, que foram evoluindo para tabaco, frutas secas e em compota, além de tomilho. No palato, confirma toda essa complexidade e exuberância, mostrando vivacidade e intensidade, tudo envolto por ótima acidez e taninos muito finos, num final muito longo e persistente. Melhorou bastante com o tempo de copo, ficando ainda mais equilibrado, sutil e elegante. Explica com um gole a fama da Pinot Noir na Borgonha. EM

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Eduardo Milan

Publicado em 21 de Março de 2019 às 19:00


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Artigo publicado nesta revista