Revista ADEGA

Especial

Garzón: a vinícola do bilionário Alejandro Bulgheroni

Conheça a vinícola de um dos homens mais ricos do mundo no Uruguai

Christian Burgos em 26 de Dezembro de 2018 às 20:00

Alejandro Bulgheroni é um homem duro em um mundo duro. Homem mais rico da Argentina, construiu sua fortuna no petróleo. Nós o encontramos chorando e ficamos calados...

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Desde 1960, Alejandro Bulgheroni investe no agronegócio e, em 2006, comprou os 2.200 hectares de Garzón

Era a inauguração oficial de sua vinícola. Ao final de seu discurso, vendo um orador comovido, tivemos mais uma vez a prova de que o vinho suaviza até os mais calejados e treinados para não deixar as emoções tomarem conta. Diante da beleza do vinho, trocam a couraça pela taça.

Após o discurso, Bulgheroni confidenciou rindo a um colaborador que “o vinho o lembrou que tinha coração”. Após seu discurso, o prefeito de Maldonado, um “departamento” no Uruguai e também lar das praias de Punta del Este, quebrou o gelo agradecendo à ex-presidente argentina Cristina Kirchner por levar o senhor Bulgheroni a escolher investir ali, gerando 1.000 empregos diretos na região. Aos convidados em geral, a sensação era a de que, quando o dinheiro se une ao bom gosto, o resultado é sempre especial.

Solo e clima

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Bulgheroni começou sua aventura no mundo do vinho ao ficar sócio de Carlos Pulenta na vinícola Vistalba, em Mendoza. Depois veio Garzón, onde se cercou de duas feras, o genial enólogo Alberto Antonini e, mais recentemente, trouxe (dizem que a peso de ouro) Christian Wylie como general manager da vinícola. “Meu negócio é o petróleo, mas sempre tive investimentos agrícolas”, disse-nos Bulgheroni. Desde 1960, ele investe no agronegócio e, em 2006, comprou os 2.200 hectares de Garzón, dos quais grande parte está destinada ao cultivo de amêndoas e oliveiras para a produção de azeites. Em 2007, Alberto Antonini foi convidado por Bulgheroni para conhecer a propriedade e analisar o que fazer.

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Os vinhedos de Garzón, na verdade, são um mosaico de pequenos vinhedos, mais especificamente 1.000 deles com, em média, 0,2 hectare cada

Era uma região fora do usual para a produção de vinhos no Uruguai. Distinta por estar próxima ao Atlântico em vez do Rio da Prata. Para Antonini, havia semelhanças com a Galícia e ele sugeriu a Bulgheroni iniciar alguns experimentos. O bilionário refutou a ideia: “Tenho mais de 60 anos, e não tenho muito tempo de vida para gastar com experimentos. Estou disposto a tomar riscos, afinal esta é minha vida”. Para Antonini, estava dado o desafio de implantar algo novo: “Neste negócio, você tem que ter informação, mas, com tantos anos neste mundo, aprendi que o feeling é muito importante. E o feeling que tive com o local foi muito bom”. O enólogo ressalta a qualidade do solo e o clima. No solo, o balastro, que é uma alteração do granito com muito boa drenagem. No clima, a influência marcante do mar e a brisa que auxilia no resfriamento. Adepto da sustentabilidade nos vinhedos, ele pondera ainda “a biodiversidade encontrada aqui, que não é normal no Novo Mundo”.

“Amo concreto porque a microbiologia prefere o concreto ao aço inoxidável. As leveduras naturais preferem concreto”, afirma Antonini

As vinhas de Garzón fogem do usual. Trata-se de um mosaico de pequenos vinhedos, mais especificamente 1.000 deles com, em média, 0,2 hectare cada um a fim de aproveitar cada recorte de acordo com sua característica de terroir para as diferentes variedades. “Desenvolvemos o sistema mais caro de plantar vinhedos do mundo”, brinca Antonini, “mas você tem muitos lotes para trabalhar, como um chef com muitos ingredientes à sua disposição”.

Para Antonini, não há milagres ou receitas para usar no mundo todo. “Existe apenas o tempo para entender. E, em oito anos, fizemos muitas experiências. Terminamos com 5 mil vinhas por hectare, alta densidade. Não iniciamos orgânicos por desconhecimento do local, mas, depois, ano a ano, fomos caminhando na direção da sustentabilidade”, diz o enólogo. “A gestão do terreno nas vinícolas convencionais gera solos mortos, que produzem frutas mortas, que fazem vinho morto. Trabalhamos para fazer as raízes se aprofundarem, pois aí temos a riqueza do solo. Solo superficial é fast food para a vinha”. Em 2009, Antonini estava seguro e, em 2010, teve início a construção da vinícola.

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Estilo Antonini

Anos atrás, nas primeiras vezes que provei os vinhos da Garzón, não encontrava o estilo Antonini, e ressaltei isso enquanto degustávamos juntos. Ele respondeu que começou as vinifica - ções mais conservadoramente, “mas que, agora, com a compreensão, está indo para o mais inte - ressante. Não utilizamos mais leveduras comer - ciais, e usamos tanques de concreto. Um ‘de volta ao futuro’ para Bulgheroni”.

“Amo concreto porque a microbiologia pre - fere o concreto ao aço inoxidável. As leveduras naturais preferem concreto. Colocamos o siste - ma de refrigeração entre as paredes de concreto, que é um sistema muito mais sutil de resfriamen - to, equilibrado e suave”, sustenta Antonini. “Preferimos e estamos introduzindo barricas maiores para o vinho se desenvolver”. Foi bom ver que Antonini continua Antonini para quem “quanto menos você faz, mais você consegue”.

“Tenho mais de 60 anos, e não tenho muito tempo de vida para gastar com experimentos. Estou disposto a tomar riscos”, afirma Bulgheroni

E a história de Alejandro Bulgheroni no vinho parece estar acelerando. Além de Vistalba e Argento,em Mendoza, e Garzón, no Uruguai, ele continuou expandindo e comprou mais duas vinícolas na Califórnia e, também, propriedades na Toscana e em Bordeaux. Nada mal para um homem que passou 20 anos sem tomar vinho, pois a esposa não gostava do hálito de álcool, mas que agora foi “obrigado” a voltar a degustar. Vinhedos para um bom Tempranillo na Espanha estão no radar.

Dica de viagem

Na sua próxima viagem a Punta del Este, reserve um espaço na agenda para uma visita à Fábrica Boutique de azeites Garzón. Passear pelos olivais, com uma visita guiada multimídia explicando a produção e depois uma degustação acompanhada de azeites, é um belíssimo programa. Aproveite para almoçar no restaurante e deixe um espaço na mala para os presentes dos amigos.

A DEGUSTAÇÃO

Degustamos alguns vinhos que ainda não estavam prontos:

AD 91 pontos

GARZÓN ALBARINHO 2016

Bodegas Garzón, Maldonado, Uruguai (World Wine).

Recém-fermentado não filtrado, maçã intensa, floral e salino. A bela acidez mostra que é a base do que será um vinho com bela estrutura, que já percebemos no fim da boca. Ainda vai ficar mais tempo com as borras para ganhar camadas extra de complexidade. Similaridades com a Galícia ajudaram a iniciar o caminho para criar o próprio estilo de Albariño. CB

AD 90 pontos

GARZÓN TANNAT 2015

Bodegas Garzón, Maldonado, Uruguai (World Wine).

Fizeram o vinho e deixam evoluindo sem interferência. Pimenta negra e especiarias. Boca com belíssima acidez, vida e intensidade confirmando a pimenta e um toque de terra. Tudo acompanhado pela fruta madura e um toque de café. A textura de taninos impressiona. Antonini ressalta que 2015 foi um ano excepcional. Segundo ele, “os Tannats de solo sem boa drenagem não causaram uma imagem positiva no mundo. Nosso desafio é fazer um Tannat com ‘drinkability’, despretensioso e bom de beber”. CB

Vinho pronto:

AD 90 pontos

GARZÓN ALBARIÑO 2014

Bodegas Garzón, Maldonado, Uruguai (World Wine).

Elaborado exclusivamente a partir de uvas Albariño, sem passagem por madeira, mas com estágio de alguns meses sobre as lias finas. Cheio de frescor e de frutas brancas e de caroço, este branco mostra acidez vibrante, ótimo volume e gostosa textura, terminando de modo agradável, com toques salinos e cítricos, que convidam a mais um gole. EM


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Artigo publicado nesta revista


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