Como esses dois elementos definem equilíbrio, estrutura e qualidade
por João Afonso

Desde os primórdios da vitivinicultura, o objetivo do homem sempre foi colher uvas maduras. O conceito de maturação, no entanto, varia conforme a região, o clima e o estilo de vinho pretendido. De forma geral, considera-se madura a uva cujo potencial alcoólico após a fermentação se situa entre 11% e 13% vol., podendo variar de acordo com o perfil do vinho, entre 9% e 15%.
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Em regiões de clima temperado, especialmente à medida que se avança para latitudes mais altas, alcançar esse equilíbrio nem sempre é simples. Já em áreas mais quentes e meridionais, o desafio costuma ser o oposto: conter o excesso de açúcar e preservar a acidez. Por isso, o acompanhamento da maturação — observando a elevação dos açúcares e a queda natural dos ácidos — é uma prática essencial na viticultura moderna.
Ainda assim, historicamente, muitos produtores priorizaram o potencial alcoólico em detrimento da acidez. A razão é prática: corrigir a acidez é tecnicamente mais simples do que ajustar níveis de açúcar, além de que, nos vinhos tintos, a maturação favorece não apenas a graduação alcoólica, mas também a cor e a qualidade dos taninos.
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O álcool surge no vinho a partir da fermentação dos açúcares naturais da uva — glicose e frutose — pelas leveduras. Esse processo, chamado fermentação alcoólica, transforma açúcar em etanol e dióxido de carbono, sendo um dos momentos-chave da vinificação.
Diversos fatores influenciam a graduação alcoólica final de um vinho. Entre os aspectos ligados ao vinhedo estão clima, latitude, altitude, exposição solar, castas, produtividade e idade da vinha. Já na adega, decisões como chaptalização, concentração, açúcar residual ou fortificação também exercem impacto direto.
De forma geral, o clima é o principal determinante. Regiões muito quentes tendem a gerar vinhos com alto teor alcoólico e acidez reduzida, exigindo correções antes da fermentação. Em áreas mais frias, ocorre o inverso: preserva-se a acidez, mas nem sempre se atinge níveis elevados de álcool, o que explica estilos tradicionais como os vinhos alemães de perfil meio seco.
Depois da água, o etanol é o principal componente do vinho. Ele atua como suporte dos aromas e sabores e influencia diretamente a textura em boca. O álcool transmite sensação de doçura e maciez; os taninos, amargor e estrutura; e os ácidos, frescor e nervosidade.
Vinhos com baixo teor alcoólico e alta concentração de taninos e acidez tendem a ser mais duros e angulosos. Já uma graduação alcoólica mais elevada permite ao vinho suportar maior acidez ou taninos mais firmes, criando equilíbrio. Dentro de parâmetros sensatos, o álcool contribui decisivamente para a suavidade e a harmonia do conjunto.
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O álcool é frequentemente descrito como a “alma” do vinho. É ele que confere sensação de corpo, calor e profundidade, especialmente em vinhos acima de 13% vol., muitas vezes definidos como encorpados, vinosos ou aconchegantes.
Por outro lado, o excesso pode tornar o vinho pesado, mole e cansativo. Da mesma forma, vinhos secos com menos de 11% de álcool — salvo exceções estilísticas — costumam parecer magros e pouco expressivos. O equilíbrio segue sendo a chave.
Além do aspecto sensorial, o álcool tem papel social e cultural. Consumido com moderação, favorece a convivialidade e acompanha a gastronomia, estimulando inclusive a digestão. Em excesso, porém, torna-se prejudicial à saúde, reforçando a importância do consumo consciente.
A acidez é responsável pela frescura, pela estrutura e pela longevidade do vinho. É ela que estimula a salivação, dá dinamismo à prova e evita que o vinho pareça pesado ou cansativo.
Um vinho excessivamente ácido pode agredir o palato, enquanto a falta de acidez resulta em vinhos planos e sem vida. O equilíbrio ácido é, portanto, um dos fatores mais determinantes da qualidade.
A videira é rica em ácidos naturais, principalmente o ácido tartárico e, em menor proporção, o ácido málico. Diferentemente de outras frutas, a uva é pobre em ácido cítrico, o que torna o tartárico a principal referência na medição da acidez total dos vinhos.
Mais importante do que a quantidade de ácidos é a sua força, expressa pelo pH. Quanto menor o pH, maior a sensação de acidez. Em termos enológicos, o pH é decisivo não apenas para a percepção sensorial, mas também para a estabilidade microbiológica e a intensidade da cor.
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Valores considerados equilibrados situam-se, em média, entre 3,0 e 3,3 para vinhos brancos e 3,4 a 3,6 para vinhos tintos, com variações naturais conforme o estilo e a origem.
Assim como o açúcar é essencial para o viticultor, o álcool e a acidez são fundamentais para o vinho. É da interação entre esses dois elementos que nasce a harmonia, a longevidade e o prazer à mesa. Sem álcool não há vinho — e sem acidez, ele perde a alma.