Joint venture

10 parcerias célebres que resultaram em bons vinhos

Uma lista com rótulos que surgiram de empreendimentos conjuntos entre produtores consagrados


Almaviva, Opus One, Cheval des Andes, Seña, Chryseia são alguns exemplos de vinhos que surgiram graças a junções entre vinícolas de peso e já nasceram grandiosos

Joint ventures. Esse é o nome dado aos empreendimentos feitos em conjunto por duas ou mais empresas que, fora desse negócio específico, mantêm suas identidades distintas. Ou seja, é uma união pontual para criar algo que una o melhor de duas empresas diferentes e crie algo diferente. E o mundo do vinho está repleto de bons exemplos disso.

As principais joint ventures de vinho começaram a surgir nos anos 1970 e especialmente depois do célebre “Julgamento de Paris” em 1976, quando vinhos norte-americanos derrotaram clássicos franceses em prova às cegas. Nessa época, produtores do Velho Mundo não só abriram os olhos ao que ocorria no Novo Mundo, como também não perderam tempo e decidiram investir onde acreditavam que havia potencial. Muitos desses investimentos foram feitos em parceria.

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Mas uma joint venture não é necessariamente uma união entre produtores de países diferentes. Há casos em que produtores consagrados de uma mesma região decidem trabalhar juntos em um novo empreendimento. Enfim, ADEGA elencou aqui 10 empreendimentos conjuntos que fizeram sucesso mundo afora, criando ícones quase que instantaneamente.

Opus One

O visionário barão Philippe de Rothschild (proprietário do Château Mouton Rothschild) prontamente se lançou a compreender as possibilidades do Novo Mundo. Em 1979, ele já fincou seu pé na América em parceria com outro grande empreendedor, Robert Mondavi. E essa união é um dos fatos mais importantes da história no mundo, a primeira vez que o Velho Mundo endossava o potencial do Novo. O objetivo da joint venture foi elaborar um único vinho, um tinto com estilo de Bordeaux e uvas da Califórnia, que fosse capaz de refletir a personalidade das duas famílias. Assim, nasceu Opus One.

AD 96 pontos

OPUS ONE 2013

Mondavi & Rothschild, Califórnia, Estados Unidos (Wine's Life R$ 5.846). Um dos grandes destaques da degustação vertical com todas as safras de Opus One já produzidas. Ainda muito jovem, merece tempo de adega para integrar ainda mais a madeira que se faz sentir inicialmente. A fruta é poderosa e vem protagonizar num vinho carnudo, com força e profundidade. Cheio de complexidade, com camadas de perfil animal e de floresta andando juntas com delirante mineralidade. CB

Almaviva

Seguindo a visão de seu pai de expandir as fronteiras do Mouton e criar outros ícones em locais de grande potencial, coube à baronesa Philippine de Rothschild dar o passo seguinte da empresa na América, mas desta vez no sul, no Chile. Ela formou parceria com a poderosa família Guilisasti, dona da renomada Viña Concha y Toro, uma das mais tradicionais vinícolas chilenas. Em 1996, os chilenos cederam parte de um dos seus mais prestigiados vinhedos em Peumo, de onde vinham as uvas para o top da casa, o Don Melchor, para, em parceria com os franceses, criar um blend também de estilo bordalês ao qual deram o nome de Almaviva.

AD 96 pontos

ALMAVIVA 2016

Almaviva, Maipo, Chile (Clarets R$ 1.300). Menos álcool que os últimos anos (13,8%). Vibrante fruta fresca e pimenta negra, com bastante equilíbrio e bela acidez; e ainda um final medicinal. O nariz tem flor azul, ervas, cerejas e mirtilo. Taninos gentis. Reflete a maceração mais curta e menos tempo em barrica. Aproveite sua curva de evolução seguramente até 2028, mas está pronto para ser saboreado hoje. Corte com 66% de Cabernet Sauvignon, 24% de Carménère, 8% de Cabernet Franc e 2% de Petit Verdot. CB

Roquette & Cazes

O projeto franco-lusitano nasceu da amizade entre Jorge Roquette, da Quinta do Crasto, e Jean-Michel Cazes, do Château Lynch- -Bages. Em 2002, as duas famílias decidiram criar uma empresa para “fazer vinhos do Douro com um toque bordalês”. As uvas vêm da Quinta da Cabreira, dos Roquette, e da Quinta do Meco, que pertence à família Cazes. A primeira safra, em 2002, não foi para o mercado. Em 2003, criou-se o primeiro vinho em conjunto, o Xisto, que depois se tornou uma “cuvée”, e só é feita em anos especiais. E em 2006 lançou-se o Roquette & Cazes.

AD 94 pontos

XISTO 2013

Roquette & Cazes, Douro, Portugal (Qualimpor R$ 1.276). O Xisto é uma espécie de “costela de Adão” de seu irmão Roquette & Cazes. Ou seja, é um lote que se destaca entre os selecionados para compor este último, por isso, não é produzido todos os anos. Embora ainda jovem, inclusive porque foi servido em garrafa magnum, o 2013 se mostra ainda muito concentrado na cor rubi escuro/púrpura, sem halo de evolução. Aromaticamente, é um vinho encantador, com muito floral e fruta negra e silvestre maduras (cerejas e ameixas pretas), envoltas por notas de grafite, de café e de especiarias aromáticas. Na boca, o grande equilíbrio mostra porque este é um vinho fora de série. À ótima acidez se somam taninos ainda bem presentes, mas de textura muito macia, e álcool equilibrado para o bom corpo, que passa quase despercebido. O final, levemente doce, é muito longo e gostoso. Recompensará quem tiver a paciência de esperar, pelo menos, de três a cinco anos para abri-lo. Álcool 14,5%. GV

Cheval des Andes

Aqui estamos falando de uma parceria entre empresas de um mesmo grupo. Tanto o mítico Château Cheval Blanc de Bordeaux quanto a imponente vinícola argentina Terrazas de los Andes pertencem ao con - glomerado LVMH. Depois de viagens à Argentina, Pierre Lurton, então diretor de Che - val Blanc, ficou encantado com alguns vinhedos antigos de Malbec e decidiu que gostaria de fa - zer um vinho de estilo bordalês com predominância dessa variedade que foi esquecida após o período da filoxera na França. Assim, em 1999, Cheval Blanc e Terrazas se uniram para esse empreendimento e formaram Cheval des Andes.

AD 94 pontos

CHEVAL DES ANDES 2015

Cheval des Andes, Mendoza, Argentina (Wine.com.br R$ 595 para a safra 2013). Tinto composto por 61% Malbec e 39% Cabernet Sauvignon, com estágio em barris de 225, 400 e 500 litros, sendo 35% novos. Chama atenção pela acidez vibrante, pela pureza de fruta e pelos taninos finíssimos. Refinado, preciso e muito equilibrado, tem final longo e persistente, com toques de grafite e de especiarias doces. Álcool 14%. EM

Seña

Na mesma época em que Rothschild se aliaram à Concha y Toro para criar Almaviva, outra joint venture internacional também já estava se formando. “O fato de Robert Mondavi vir ao Chile fazer um vinho com Errázuriz foi um grande acontecimento mundial. Seña foi o precursor, e logo vieram Almaviva, Clos Apalta...”, conta Eduardo Chadwick. A primeira safra de Seña, sua parceria com Mondavi, foi em 1995. Com o tempo, Chadwick não somente comprou a parte de Mondavi como passou a promover o vinho mundialmente. Sua maior realização foi a “Cata de Berlim”, uma prova às cegas entre grandes vi - nhos realizada em 2004, nos mesmos moldes do “Julgamento de Paris” de 1976.

AD 96 pontos

SEÑA 2016

Seña, Aconcágua, Chile (Grand Cru R$ 1.900 para a safra 2015). Tinto composto de 55% Cabernet Sauvignon, 20% Malbec, 15% Petit Verdot, 8% Carménère e 2% Cabernet Franc, com estágio de 22 meses parte em barricas de carvalho francês (77% novas) e parte em foudres também novos (Stockinger). Seguramente a melhor safra desse ícone chileno. Impressiona pela verticalidade e precisão. Mostra frutas vermelhas e negras mais frescas, tudo num contexto de muita persistência e profundidade, com notas florais, de ervas e de especiarias doces complementando o conjunto. Tem taninos de excelente textura, ótima acidez e final longo, muito longo, sem nenhuma concessão ao dulçor, com toques de alcaçuz e de grafite. Álcool 13,5%. EM

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Prats & Symington

Em novembro de 1998, a família Symington (tradicionalíssima no Vinho do Porto, com marcas como Graham’s, Dow’s, Warre’s e Cockburn’s, por exemplo) propôs a Bruno Prats (ex-dono do Château Cos d’Estournel) que participasse de um projeto para produzir um vinho no Douro. A proposta tomou forma em 1999 com a criação da empresa Prats & Symington que logo experimentou com parcelas e variedades. A primeira safra do Chryseia, o vinho surgido dessa parceria, foi no ano 2000 e ele logo se tornou um dos ícones entre os vinhos não fortificados do Douro, abrindo caminho para muitos outros.

AD 94 pontos

CHRYSEIA 2013

Prats & Symington, Douro, Portugal (Mistral US$ 203). Maioria de Touriga Nacional e Touriga Franca acompanhadas de Tinta Roriz e Tinto Cão, as uvas vem 90% da Quinta do Roriz comprada em 2008. Nariz aristocrático com muita finesse. Violeta, balsâmico e ameixa madura. Ervas aromáticas. Suculência e equilíbrio, com taninos lindos de belíssima textura, acompanhado de untuosidade, grande vibração e inebriante mineralidade. Álcool 14%. CB

Bodegas Caro

Foi em 1999 (mesmo ano em que surgiu Cheval des Andes) que nasceu a ideia de uma parceria entre os Domaines Barons de Rothschild (Château Lafite Rothschild) e a família Catena, da Bodega Catena Zapata. Assim, Nicolas Catena e o barão Eric de Rothschild uniram-se em um projeto para fazer um vinho único da “aliança de duas culturas, francesa e argentina, com duas variedades de uva, Malbec e Cabernet Sauvignon”. A primeira safra de Caro (contração de Catena e Rothschild) foi no ano 2000 e logo novos vinhos foram sendo somados à coleção.

AD 94 pontos

CARO 2016

Bodegas Caro, Mendoza, Argentina (Mistral US$ 97 para a safra 2013). Tinto composto de 85% Cabernet Sauvignon (primeira safra com essa porcentagem) e 15% Malbec, com estágio de 18 meses em barricas de carvalho francês. Uma versão austera desse tinto argentino refinado e de sotaque francês. As notas de especiarias e de ervas envolvem os aromas de frutas vermelhas de perfil mais fresco, com toques terrosos e de chá preto envolvendo o conjunto. Tem taninos finíssimos, ótima acidez e final suculento e persistente, com toques de grafite e de alcaçuz. Álcool 13,5%. EM

Altaïr

O Chile é pródigo em parcerias entre produtores para criar vinhos distintos. No começo dos anos 2000, o francês Laurent Dassault – proprietário dos Châteaux Dassault e La Fleur, em Saint-Émilion – e a Viña San Pedro começaram a trabalhar juntos e escolheram uma área de 72 hectares no Alto Cachapoal para criar um grande vinho. Assim, em 2001, nasceu a Viña Altaïr. Altaïr – o voo da águia – é o nome da estrela da constelação Aquila, que pode ser vista de qualquer ponto do globo, ou seja, une Velho e Novo Mundo. A parceria com Dassault durou até 2007, quando o grupo chileno comprou a sua parte no negócio.

AD 95 pontos

ALTAIR 2011

Viña Altaïr, Cachapoal, Chile (Grand Cru R$ 700). Tinto composto de 78% Cabernet Sauvignon, 10% Syrah, 7% Cabernet Franc e 5% Petit Verdot, com estágio de 10 meses em barricas 50% novas e 50% usadas de carvalho francês. Imperam os aromas de frutas mais frescas como ameixas, cassis e cerejas, envoltos por notas florais, minerais e de especiarias doces. Jovem ainda, mostra-se fino, preciso, elegante, profundo, cheio de textura, de tensão, de acidez e de finesse. Aqui se percebe claramente onde queriam chegar as mudanças percebidas safra após safra desde 2002. Num vinho de boca mais que de nariz, que consegue ser delicado e ao mesmo tempo vibrante e cheio de frescor, mas, acima de tudo, fundado sob taninos de muita estrutura e de textura fina, lembrando giz. Álcool 14,7%. EM

Triennes

As joint ventures no mundo do vinho não se restringem a parcerias internacionais, mas podem também ser nacionais, como a que surgiu da união de três franceses. Em 1989, os icônicos produtores da Borgonha, Jacques Seysses, fundador do Domaine Dujac, e Aubert de Villaine, do Domaine de la Romanée-Conti, mais um amigo parisiense, Michel Macaux, uniram-se para buscar vinhedos e criar um vinho em conjunto. Acharam o que procuravam em Provence quando adquiriram o Domaine du Logis de Nans. Lá surgiu Triennes, uma referência a Triennia, o festival de Baco que era realizado a cada três anos durante a época romana.

AD 91 pontos

TRIENNES LES AURÉLIENS ROUGE 2014

Triennes, Provence, França (Clarets R$ 149). Tinto orgânico elaborado a partir de um blend de Cabernet Sauvignon e Syrah, com estágio em barricas de carvalho francês do Domaine Dujac, na Borgonha. Muito gostoso de beber, mostras notas florais, de ervas e de especiarias picantes envolvendo sua fruta, lembrando ameixas e amoras, tudo num contexto de refrescante acidez, taninos de ótima textura e final agradável e persistente, com toques minerais. Álcool 13,5%. EM

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Arnaldo Grizzo

Publicado em 13 de Novembro de 2019 às 14:00


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