Sustentação

Como funcionam os métodos de condução de videira?

Latada, espaldeira, gobelet, guyot... Os métodos de condução têm diferentes influências e funções


Conduzir é sinônimo de transmitir, de guiar. Podemos conduzir uma pessoa, um veículo ou mesmo uma conversa. Geralmente, quando conduzimos, estamos, pensamos, ou tentamos estar no comando.

Estima-se que o homem e a videira estão coevoluindo desde 8.000 a.C. Nesse período de tempo, ele domesticou a videira silvestre, mostrando sua capacidade de selecionar e cultivar as espécies para aprimorar a qualidade e aumentar o rendimento dos frutos.

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No longo processo de domesticação e cultivo, o homem – vamos chamá-lo de viticultor – desenvolveu e aprimorou uma série de técnicas para ter as videiras sob seu controle e, com isso, espera lograr frutos aptos a uma perfeita vinificação. O viticultor quer conduzir suas videiras assim como o pastor quer conduzir suas ovelhas.

O que chamamos de condução da videira é o conjunto de inúmeras técnicas empregadas no cultivo. Esse conjunto inicia-se com o plantio da pequena vinha no solo e segue durante toda a vida do vinhedo, período de tempo que pode ultrapassar um século. Essas técnicas variam de região para região, e o fator preponderante é sempre o conhecimento. Esse conhecimento é adquirido principalmente pela capacidade de observar como a planta se comporta frente às variáveis impostas no ambiente.

Sustentação x condução

Quando citamos sistema de condução da videira, logo pensamos no formato como o vinhedo é construído. Isso não está de todo errado, mas tecnicamente é mais adequado chamarmos o “formato do vinhedo” de sistema de sustentação da videira. Logo, isso faz parte do conjunto de técnicas que compõem o sistema de condução da videira, ou seja, a sustentação é apenas um dos inúmeros elementos da condução.

Para definir como conduzir o seu vinhedo, a principal pergunta que o viticultor precisa responder é: qual será a finalidade das uvas que irei produzir neste lugar? Esta pergunta é um pouco complexa e requer certa experiência sobre o local de cultivo e seu potencial, pois deve-se levar em consideração estudos conduzidos na região ou, na ausência destes, adaptar estudos de locais com solos e clima similares. Além dessas questões edafoclimáticas (solo e clima), deve-se considerar a disponibilidade de recursos financeiros, a disponibilidade de mão-de-obra especializada e, principalmente, as demandas e oportunidades do mercado.

Esse conjunto possibilita ao viticultor lograr desde abundantes produções até grande qualidade, mas, geralmente, esses dois parâmetros estão em lados opostos da balança; e o seu equilíbrio depende quase que exclusivamente da condução que é dada à videira.

No sistema Gobelet ou vaso (muito difundido na Espanha), a videira é apoiada apenas por uma estaca que pode ser removida depois de uma década

Com isso, é possível identificar qual a melhor forma de conduzir um vinhedo em um determinado local, com uma finalidade específica, e, se as escolhas forem acertadas e bem conduzidas, o resultado poderá ser um vinho adequado à demanda.

Formatos

Um vinhedo pode ser cultivado sob um sistema de sustentação (formato) complexo ou mesmo sem sistema de sustentação. Neste último caso, a videira é plantada diretamente sobre o solo, lançando seus brotos e frutos livremente. Isso só é possível em um clima extremamente seco, do contrário, os frutos não chegariam sadios ao ponto de colheita. A produção nesse sistema é extremamente baixa e o cultivo, praticamente antieconômico.

Também rudimentar é o curioso sistema em que as videiras apoiam-se e agarram-se em árvores. Essas videiras geralmente assumem grandes dimensões e frutificam pouco, rendendo poucos frutos e exigindo grande esforço humano para o cultivo e colheita.

Formato de sustentação do vinhedo é apenas um dos inúmeros elementos da condução

Para facilitar o entendimento, podemos pensar no sistema de sustentação da videira como um exoesqueleto que auxilia na sustentação de um corpo invertebrado. Esse corpo invertebrado (a videira, no caso) agarra-se ao exoesqueleto (sistema de sustentação) por meio de estruturas especializadas, as gavinhas, ou é amarrada a ele pelo viticultor. As gavinhas, por sua vez, ao tocarem um corpo qualquer, tratam de enrolar-se nele, possibilitando assim uma consistente sustentação à videira.


Na latada, ou pérgola, a vinha é sustentada horizontalmente sobre um pergolado e o rendimento é maior

A espaldeira (em que a videira assume o formato de uma pequena cerca – conforme imagem acima) é o sistema mais moderno e mundialmente difundido, pois facilita o manejo

Entre os sistemas de sustentação mais modernos e difundidos, podemos citar o Gobelet ou vaso, em que a videira é apoiada apenas por uma estaca e esta pode ser removida ao passo de uma década. Após esse tempo, a planta já terá engrossado seu pequeno caule e ele terá condições de sustentá-la. Ela assumirá o formato de um pequeno vaso. Esse sistema é difundido na árida Espanha. A produtividade geralmente é bastante reduzida.

Depois, temos a latada ou pérgola. Neste sistema, a videira é sustentada horizontalmente sobre um pergolado aproximadamente dois metros acima do solo. Isso permite que o viticultor aproveite melhor pequenas áreas, possibilitando o cultivo de outras frutas e legumes à sombra das videiras, melhorando a produtividade das pequenas propriedades.

Permite também que os frutos se mantenham distantes do solo e bastante protegidos da radiação solar direta. As colheitas têm rendimento abundante, porém requerem grande emprego de mão-de-obra.

A espaldeira é o sistema mais moderno e mundialmente difundido. Nele, a videira assume o formato de uma pequena cerca, geralmente com até dois metros de altura. Os brotos são dispostos verticalmente em posição ascendente. Esse sistema é bastante prático, facilita o manejo e permite até mesmo mecanizar todo o cultivo. Também permite que uma maior superfície foliar nutra os cachos, favorecendo assim rendimentos equilibrados e qualitativos.

Esses quatro sistemas de sustentação apenas ilustram a variada gama de possibilidades de sustentação da videira. Existem inúmeras outras variações que dão origem aos mais curiosos sistemas, e todos possuem certas vantagens e desvantagens.

Poda

A poda de inverno define como será a arquitetura da videira e condiciona o vigor. Ela é complementada pela poda em verde

Outro elemento muito importante que compõe a condução da videira é a poda. Ela divide-se em poda de inverno, ou seca, geralmente feita durante o período de dormência da videira, e em poda de verão, ou verde, geralmente feita durante o período em que a planta está em plena atividade vegetativa.

A poda de inverno define como será a arquitetura da videira e condiciona o vigor, pré-determinando colheitas mais abundantes ou mais qualitativas. É feita geralmente entre o final do inverno e o início da primavera, e promove a remoção de grande parte dos brotos do ciclo anterior, gerando uma renovação da planta, preparando-a assim para o novo ciclo vegetativo. Conforme a variação dessa poda e a região em que é praticada, ela se torna conhecida por um nome, por exemplo: guyot simples, guyot duplo, guyot triplo, guyot quádruplo, mendoncino, royat, royat duplo, cordão, cazenave, arqueto, arqueto duplo, cabeça, esporonada, bordalesa etc.

Independentemente do tipo, geralmente a poda invernal é um momento de grande concentração e introspecção para o viticultor, afinal aqui se está iniciando um novo ciclo, tanto para a videira quanto para ele.

As podas em verde compreendem a remoção de brotos, a retirada de folhas e o raleio de cachos – apenas para citar as três principais atividades. Elas são secundárias e vão complementar a poda de inverno, e manter a videira dentro dos objetivos propostos, mas não por isso são menos importantes e determinantes para a qualidade dos frutos.

Dependendo da região e do tipo, as podas podem ser conhecidas como guyot, mendoncino, royat, cordão, cazenave, arqueto, cabeça, esporonada, bordalesa etc

Na remoção dos brotos ou desbrota, selecionam-se os brotos de adequado vigor e sanidade, e eliminam-se os excedentes e deficientemente expostos ao sol. Essa prática promove uma acomodação das folhas e frutos da videira no sistema de sustentação, dando uma adequada formatação da planta. Pode ser feita em vários momentos do ciclo vegetativo, mas é importante que a primeira seleção e remoção dos brotos seja feita antes de eles atingirem 15 centímetros de comprimento, favorecendo assim o desenvolvimento dos brotos remanescentes.

A retirada de folhas é a poda em verde mais conhecida e difundida, pois a desfolha é uma atividade relativamente simples e que promove uma adequada exposição dos jovens cachos à radiação solar, favorecendo muito a melhora qualitativa do produto final. O raleio de cachos nada mais é do que selecionar os melhores e mais bem expostos e eliminar os excedentes, doentes ou defeituosos, favorecendo uma completa maturação dos remanescentes. Essa atividade é feita semanas antes da colheita e sempre implica em menor rendimento e aumento do potencial enológico das uvas.

Renovação

Assim, citamos apenas alguns exemplos de interações na condução da videira, sendo que infindáveis outras intervenções são possíveis.

Não podemos nos esquecer de que a videira é uma planta trepadeira, perene, de ciclo anual e caducifólia, ou seja, perde suas folhas no período invernal e entra em dormência até que a temperatura do ambiente volte a aumentar promovendo a nova brotação.

Isso permite que certos erros possam ser corrigidos nos próximos ciclos e que acertos possam ser aprimorados. Mas o regime climático de um ciclo pode ser bem diferente no outro e isso exige que o viticultor esteja sempre atento para conduzir suas videiras com a mesma destreza que um velejador maneja as velas do seu veleiro.

Essa complexa possibilidade de interação torna o vinho uma bebida fascinante, única e cultural. Para saber se o homem e a vinha estão bem integrados, podemos observar se o vinho de uma determinada região é mais elegante e equilibrado quando elaborado com uvas provenientes de videiras jovens ou de vinhas velhas. Quanto melhor e mais evoluída essa interação, melhores os resultados ao longo do tempo.

Anderson de Césaro

Publicado em 25 de Abril de 2019 às 14:30


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Artigo publicado nesta revista