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  • Envelhecido em Bourbon

    Como funciona o envelhecimento de vinhos em Bourbon?

    Cada vez mais vinícolas estão testando estágios em barricas de uísque, criando o conceito de vinhos Bourbon

    por Arnaldo Grizzo

    Ainda não é tão comum no Brasil, mas cada vez mais consumidores norte-americanos têm se deparado com um novo estilo de vinho, os envelhecidos em barricas de Bourbon, como são chamados os uísques norte-americanos.

    Esses vinhos tendem a ficar mais encorpados, ganhar fortes aromas e sabores da madeira, além do maior volume de álcool. E o mais interessante é ver isso ocorrer justamente em uma época em que, teoricamente, os produtores estão, cada vez mais, em busca de maior frescor em seus vinhos.

    • Vinho velho é sinônimo de vinho bom?

    Que contradição louca, não? Mas, sim, cada vez mais vão surgindo vinhos amadurecidos em barricas de destilados, e não somente uísque. Pois é, a cada novo lançamento, surge algo ainda mais inusitado como tintos estagiados em barris de rum, brancos em barricas de tequila e assim vai. E todas essas experiências devem-se à boa aceitação desses vinhos no mercado norte-americano.

    Seria uma forma de unir bebedores de vinho e de uísque?

    • 3 curiosidades sobre envelhecimento de vinho

    Diz-se que o primeiro vinho envelhecido em barricas de Bourbon foi feito pela Fetzer (tradicional empresa dos Estados Unidos comprada, em 2011, pela chilena Concha y Toro). Em 2014, foi lançado um vinho comemorativo chamado 1000 Stories, um Zinfandel que estagia, primeiramente, em barricas convencionais, mas depois, em barricas de Bourbon.

    Seu “criador”, o enólogo Bob Blue, contudo, diz que este não seria o primeiro vinho feito dessa forma: “Lembro claramente que, no início dos anos 1980, quando eu estava começando como enólogo, obter carvalho francês para o vinho era difícil. Então, como não havia muito orçamento, usamos barris de Bourbon”. Ou seja, ele acha que outros produtores já teriam feito isso antes, mas sem usar o marketing que hoje está sendo empregado.

    Facilidades

    É fácil entender o porquê de essa nova moda estar aparecendo nos Estados Unidos. Lá, os produtores têm muito acesso às destilarias, mas, além disso, há um fator integração empresarial, pois muitas das grandes corporações de bebidas são donas de diversas marcas, com vinícolas e destilarias, ou seja, em algumas há uma boa sinergia, com troca de conhecimentos e técnicas entre funcionários de diferentes áreas.

    A Brown-Forman, por exemplo, possui a destilaria Woodford Reserve e a vinícola Sonoma- -Cutrer Vineyards e, desde 2006, esta última tem fornecido barricas de alguns de seus vinhos para que o mestre destilador faça testes.

    • Dez vinhos brancos que podem envelhecer com classe

    O primeiro foi finalizar seus Bourbon em barris de Chardonnay. Depois, tentaram ainda em barricas de Pinot Noir. Quase na mesma época, Mick Schroeter, enólogo da Sonoma-Cutrer, decidiu fazer o caminho inverso e testar estágio de seus Pinot em barris da Woodford Reserve.

    “Engarrafamos 40 caixas que vendemos na sala de degustação da vinícola. Isso mudou o Pinot, deu uma sensação de geleia quase como um Zinfandel. E foi um sucesso de vendas”, afirmou. Antes disso, Schroeter já havia tentado envelhecer seus Chardonnay em barricas de tequila de uma empresa controlada pela Brown-Forman.

    • Conheça o Clube ADEGA e sua seleção incrível de vinhos
    Bourbon
    Para que os tons da barrica não dominem totalmente o vinho, os produtores procuram estagiar por um tempo mais curto

    No mesmo ano em que a Fetzer lançou seu 1000 Stories, a Cooper & Thief, marca da Constellation Brands também lançou seu Red Blend, mescla envelhecida por três meses em barris de Bourbon, que saiu ao mercado com impactantes 17% de álcool.

    “Nosso principal objetivo com a Cooper & Thief é desafiar as normas de vinificação tradicionais, para criar um pouco de travessuras”, apontou o enólogo Jeff Kasavan.

    • Esquerda e Direita: As diferenças de Bordeaux

    Com o sucesso, logo ele pensou em envelhecer seus Sauvignon Blanc em barris de tequila de outra empresa da Constellation. “Eu sabia que era uma combinação vencedora quando vi a complexidade única das notas de limão do vinho, junto com as notas sutis de carvalho e mineralidade que se desenvolvem nas barricas de tequila”.

    Em seguida, outra vinícola da Constellation, a Robert Mondavi também criou vinhos estagiados em Bourbon, como um Cabernet Sauvignon e um Chardonnay, mas também um Merlot estagiado em barris de rum.

    • A acidez é um dos pilares da qualidade dos vinhos

    Mas a “moda” não está restrita aos produtores norte-americanos e já chegou à América do Sul. A Finca Las Moras, do grupo Peñaflor, na Argentina, já vem produzindo três vinhos envelhecidos em barricas de Bourbon, um Malbec e um Cabernet Sauvignon (que estagiam por 12 meses nesses barris) e um Chardonnay.

    Um novo estilo

    “Quando usamos barris de Bourbon para finalizar o vinho, introduzimos um conjunto diferente e mais intenso de aromas e sabores que seriam menos pronunciados em barricas de vinho tradicionais”, diz Bob Blue, enólogo da Fetzer.

    Os barris de Bourbon são ligeiramente mais altos e mais finos do que os barris de carvalho usados na vitivinicultura, isso aumenta a relação vinho- -madeira e a diferença e riqueza de sabores surgem do fato de que eles são legalmente obrigados a serem feitos de carvalho americano novo e com tosta forte. Além disso, eles são usados uma única vez – tanto que é tradicional sua venda para produtores de uísque na Escócia.

    • Carvalho e sua influência sobre o vinho
    Bourbon
    Bob Blue, enólogo da Fetzer, diz que envelhecimento em barricas de Bourbon não é algo recente

    Os efeitos de envelhecimento em barril de Bourbon incluem notas de caramelo, xarope, baunilha, açúcar mascavo, especiarias doces e, também, um caráter sutil do próprio Bourbon – vale lembrar que algumas dessas notas podem ser obtidas em barricas de vinho convencionais. Nota-se ainda um aumento no corpo e no volume alcoólico.

    Aqui, pesa a tosta da barrica de Bourbon que pode entregar mais fortemente esses sabores nos vinhos e, para que isso não domine totalmente a bebida, os enólogos precisam fazer ajustes e limitar o tempo de envelhecimento no barril por apenas poucos meses ou envelhecer apenas uma parte do vinho, ou ainda buscar barris muito antigos.

    • O que é e como funciona o sistema de solera?

    “Desta forma, os barris não eliminam a uva ou a sua origem e, em vez disso, servem apenas como forma de armazenar o vinho enquanto envelhece, enquanto transmitem nuances intrigantes”, diz Deb Juergenson, enólogo da Apothic Wines, que produz seu “Inferno” com estágio em barris de Bourbon.

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